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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Invasão russa no mercado editorial

Matéria de Diogo Guedes para o Jornal do Commercio de Recife sobre o boom de literatura russa no mercado editorial brasileiro.




sábado, 19 de novembro de 2011

O romancista tradutor

Rubens Figueiredo, o autor nacional mais premiado deste ano, lança a primeira tradução brasileira de Guerra e paz, de Tolstói

Luís Antônio Giron para a revista Época

Rubens Figueiredo

As funções do ficcionista e do tradutor parecem se excluir. Um se dedica a suas criações e não tem tempo para pensar em outros autores, quanto mais traduzi-los. O outro se ocupa em passar textos alheios para o idioma vernáculo, e sua assinatura é ofuscada pela dos autores. Em Rubens Figueiredo, ambos se fundem na mesma pessoa. Ele escreve ficção e traduz com igual entusiasmo. Esse trânsito dá a seu trabalho uma qualidade peculiar. Seus contos e romances – oito em 30 anos de carreira – falam de memória e cotidiano, com doses de sarcasmo e crítica. As 70 traduções que fez do inglês e nove do russo exibem uma fluência difícil de encontrar numa área cada vez mais entregue a amadores e arrivistas. 

Neste ano, Figueiredo é autor de duas façanhas. Tornou-se o escritor mais premiado do Brasil ao ganhar os prestigiosos – e bem pagos – prêmios São Paulo de Literatura (R$ 200 mil) e Portugal Telecom (R$ 100 mil) por seu último romance, Passageiro do fim do dia (Companhia das Letras, 200 páginas, R$ 40), de 2010. A segunda façanha está em lançar nesta semana a tradução do romance Guerra e paz, de Liev Tolstói (CosacNaify, 2.536 páginas em dois volumes, R$ 198). Trata-se da primeira tradução brasileira feita diretamente do russo da obra-prima de Tolstói (1828-1910), publicada 142 anos atrás.

Mesmo assim, ele não se acha consagrado. “Fiquei surpreso com os elogios”, diz. “Mas sigo no meu canto, fazendo o que sempre fiz.” Aos 55 anos, Rubens é um carioca pacato, casado há 20 com a escritora Leni Cordeiro. Tem dois enteados e vive entre o Rio de Janeiro e a cidade serrana de Teresópolis. Na serra, gosta de escrever. Lá terminou Guerra e paz e seu último romance.

Tolstói

Sua produção não o impede – nem o poupa – de trabalhar. Professor do ensino médio há mais de 30 anos, ele dá aulas de português no curso noturno e no supletivo do colégio estadual Manoel Cícero, na Gávea. Ele se formou e fez mestrado em português e russo na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Começou nos anos 1990 a traduzir ficção em língua inglesa, livros de Paul Auster e Susan Sontag. Há dez anos, passou aos clássicos russos: Pais e filhos, de Ivan Turguêniev, contos de Anton Tchékhov e dois romances de Tolstói: Anna Kariênina e Ressurreição, entre outros. “Cheguei a Tolstói a pedido dos editores”, diz. “Mas ele acabou por marcar minha vida.” 

Nada disso havia no início, quando fazia humor – “Talento de família”, diz (é irmão de Reinaldo Figueiredo, redator de humor da TV Globo). Seus três primeiros livros – O mistério da samambaia bailarina (1986), Essa maldita farinha (1987) e A festa do milênio (1990) – eram cômicos. “A vida me parecia leve na juventude”, diz. “Curiosamente, o humor foi diminuindo de livro para livro.”

Guerra e Paz
Passageiro do fim do dia tem um tom sério: relata um dia na vida de Pedro – quase homônimo de um dos protagonistas de Guerra e paz, Pierre. Pedro é pobre. Num ônibus, dirigindo-se à casa da namorada na favela, ele pensa na vida. Ao saltar, já não é o mesmo, pois se dá conta da opressão e da finitude, as grandes questões de Tolstói. A influência não é casual. Figueiredo está às voltas com ele há sete anos, três com Guerra e paz. “Tolstói me impressiona pela consciência crítica”, diz. “Assim, ele questiona o caráter científico da história e demonstra a força do acaso. Despreza os heróis. Nivela generais, camponeses, animais e plantas.”

A transformação do pobre Pedro lembra a do nobre Pierre. Ele também amadurece, só que ao longo de 20 anos. De 1805 a 1825, esse corpulento filho ilegítimo de um conde envolve-se em orgias, herda a fortuna do pai, casa-se com a bela princesa Hélène, separa-se ao descobrir que ela é “depravada”, entra na Maçonaria e, apesar de pacifista, luta na guerra. Casa-se com a plácida Natasha e se estabelece. Nesse meio-tempo, as tropas napoleônicas invadem a Rússia e são derrotadas pelo exército do czar Alexandre I em 1812. A conquista da paz interior de Pierre corresponde à da paz nacional. Escrito entre 1863 e 1869, Guerra e paz faz um painel histórico, com 500 personagens, quase todos reais. 
Passageiro do Fim do Dia

Rubens procurou transferir ao português as inovações, a sintaxe e o léxico do romance. Segundo ele, Tolstói renovou o romance não só criando o épico moderno ao articular a vida íntima dos membros de cinco famílias nobres (fictícias) às campanhas militares do início do século XIX. “Ele registrou a fala de classes distintas. Há passagens intraduzíveis, como os diálogos dos camponeses e dos soldados. Tentei buscar correspondências coloquiais”, diz. Outra dificuldade foi manter o ritmo da narrativa, cheia de orações longas e interrupções, além do tom crítico. “Tolstói queria ser um bárbaro entre civilizados. Questionava a dominação cultural da Europa ocidental sobre o resto do mundo – encarnada em Napoleão, a figura mais saliente e atacada do livro.” O resultado é um texto nítido, sem frases intrincadas. Se em ficção ele é conciso, em tradução dá espaço à retórica de Tolstói. 

A professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília, especialista em literatura brasileira atual, afirma que a obra de Figueiredo se distingue da ficção urbana atual pela densidade. “Ele aborda cenários pobres, mas seus personagens não são violentos. Eles refletem, e isso cria estranhamento. Seu estilo é amarrado, o que a gente nota em suas traduções.” Para o tradutor do russo Paulo Bezerra, o que conta não é Figueiredo ser ficcionista, mas conhecer a língua e a cultura russas. “O ficcionista cria sua ficção, mas quando traduz se coloca na mesma condição do ‘não ficcionista’: opera com ficção alheia e desaparece como ficcionista. E isso Figueiredo faz bem.”


Para Rubens, não há segredo em ser a um tempo tradutor e romancista. “Tanto um como outro se expressam numa língua. O objetivo do tradutor é recriar no vernáculo um texto de outro idioma; o do ficcionista, exprimir sua experiência.” Por isso, ele traduz com disciplina, mas faz ficção só quando tem o que dizer. Enquanto não lhe vem à cabeça uma trama, dá aulas e traduz. Planeja traduzir as memórias e os contos de Tolstói. “Não me forço. Escrever é uma necessidade que nasce da vida diária. Tanto fazer ficção como traduzir não envolvem apenas palavras. É bem mais que isso.”


sábado, 1 de outubro de 2011

Folha Ilustrada: O Duplo de Dostoiévski

Dostoiévski antecipa invenções do século 20 em "O Duplo"


O tradutor e ensaísta Paulo Bezerra tem se dedicado nos últimos anos a uma laboriosa tradução das obras do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Com o lançamento da novela "O Duplo" ("Dvoinik"), a importante coleção soma agora 14 volumes. Aos 24 anos, Dostoiévski caiu nas graças da crítica com seu livro de estreia, "Gente Pobre" (1846). A mesma crítica, porém, recebeu com estranhamento e frieza "O Duplo" (também de 1846), considerado "enfadonho e verboso", como descreveu o próprio autor em sua correspondência, além de um pastiche de "O Diário de Um Louco", de Gógol (1809-1852).  A posteridade tratou de reavaliar o livro, hoje tido como uma das obras centrais do escritor. "Parece-me que foi a melhor coisa que ele escreveu", afirmou Vladimir Nabokov (1899-1977), ressaltando os detalhes "quase joyceanos" do livro. 

ASSOMBROSA INVENÇÃO
"O Duplo" é uma assombrosa invenção literária feita a partir de quase nada. Seu protagonista, Golyádkin, é um funcionário público de baixo escalão, mais um daqueles pequenos homens que povoam as obras do escritor. Afetado por algum transtorno psicológico, ele passa a digladiar-se com um duplo de si, um Golyádkin segundo, que vem perturbar sua vida e seu trabalho. Dostoiévski constrói, pioneiramente, uma narrativa que vai embaralhando o que é "real" e o que é alucinação, até o ponto de as flutuações da consciência (e da demência) do personagem se imporem à objetividade da escrita realista. "Dostoiévski realizou uma espécie de revolução coperniciana em pequenas proporções, convertendo em momento da autodefinição do herói o que era definição sólida e conclusiva do autor", analisou o teórico russo Mikhail Bakhtin (1895-1975). O leitor penetra na obra como se estivesse numa típica novela do Oitocentos russo, esbarra com o que parece ser uma história fantástica e acaba imerso numa vigorosa sátira social (e política) e numa aventura protovanguardista, que antecipa experiências literárias do século 20.

O Duplo
Autor: Fiódor Dostoiévski
Editora 34
Tradução: Paulo Bezerra
Quanto: R$ 39 (240 págs.)
Aavaliação: ótimo

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Exposição explora relação do escritor Tolstói com a Alemanha

Mostra, que acontece na Literaturhaus, em Munique, até 31 de janeiro de 2011, traz à luz laços entre o filósofo e o país que tanto o inspirou.

"Ein Licht ist mir aufgegangen" (uma luz se acendeu em mim, em tradução livre) escreveu Leo Tolstói em alemão no ano 1861, depois de um encontro em Berlim com o escritor Berthold Auerbach. Para ele, escrever em um idioma estrangeiro era algo excepcional: há muitos manuscritos em alemão do famoso escritor russo. Uma prova disso é o diário de Tolstói à mostra numa exposição na Literaturhaus, em Munique.

Também estão sendo expostas cópias dos cadernos de viagem dos anos 1857-1861, extrações das correspondências trocadas com seus 2 mil leitores alemães e outros documentos valiosos. O material mostra como o autor russo conhecia bem a Alemanha.

Svetlana Novikova, especialista em manuscritos do autor e perita do Museu Tolstói, de Moscou, fala de sua paixão pela Alemanha: "Ele amava a música alemã, Beethoven, Bach e os filósofos e escritores que ele podia ler em alemão".

Influência dos professores

O bom conhecimento da língua alemã do escritor nascido em 1828 e batizado Lev Nikolajewitsch Tolstói deve-se ao seu professor, Friedrich Rössl. Segundo a curadora da mostra, Johanna Döِring-Smirnov, a família Tolstói o chamava de Fjodor Iwanowitsch.

"Ele era um soldado que desertou e sapateiro. Uma pessoa relativamente simples, mas com virtudes como compaixão e simpatia, que foram ensinadas a Tolstói", afirma.

Outro papel importante para o desenvolvimento do seu senso de justiça foi desempenhado pelo professor Dimitri Meier, da Universidade de Kazan. Aos 17 anos, Tolstói recebeu do professor a tarefa de comparar a czarina Catarina, a Grande, nascida alemã, com o filósofo e iluminista francês Montesquieu.

"Isso o impressionou tanto, que ele se tornou um dos primeiros críticos do czar. Mas, acima de tudo, com Meier ele aprendeu a responsabilidade social para com seus agricultores, e que não é tão importante filosofar, mas implementar a filosofia na prática", diz Döِring-Smirnov.

Depois de abandonar os estudos em Kazan, o jovem conde Tolstói retornou para Iasnaia Poliana, e tentou implementar suas ideias iluministas na propriedade de sua família na Rússia central.

Sua prioridade era a educação da população rural. Na Alemanha, porém, ele procurou em vão por exemplos neste sentido. Nos seus diários de viagem, ele expressou sua indignação sobre o castigo físico e a obrigatoriedade de decorar.

 Anos conturbados

A ligação de Tolstói com a Alemanha se solidificou em 1862 através do seu casamento com a teuto-russa Sofia Andreievna, nascida Behrs, com quem teve 13 filhos. A esposa, 16 anos mais jovem, foi de grande ajuda para o trabalho de Tolstói, até que, em 1881, aos 63 anos, ele abdicasse de privilégios e direitos autorais para viver apenas como camponês.

"Esta já é, por um lado, a história de Konstantin Levin em Ana Karenina, que virou agricultor. Mas em contrapartida foi uma tragédia para Sofia", afirma a curadora.

A ruptura definitiva entre os cônjuges aconteceu pouco antes da morte do escritor. Depois de uma briga com sua esposa, Tolstói saiu de casa aos 82 anos de idade. Ele morreu poucos dias depois, em 20 de novembro de 1910, em uma estação de trem. Ele foi enterrado em Iasnaia Poliana, onde havia nascido, sem uma identificação em seu túmulo, como desejara.

"O que podemos aprender com ele é que a liberdade não é determinada por circunstâncias externas, mas por um desenvolvimento interior", afirma Vitali Remizov, diretor do Museu Tolstói, de Moscou.

A exposição Ein Licht ist mir aufgegangen sobre Lev Tolstói e sua relação com a Alemanha pode ser vista na Literaturhaus, em Munique, até 31 de janeiro de 2011.

Autora: Anila Shuka (mda)
Revisão: Roselaine Wandscheer

Um gênio em busca de respostas

Morto há exatos cem anos, Liev Tolstói ganha em 2011 nova tradução do monumental Guerra e Paz e tem seus momentos finais contados no filme A Última Estação, que estreia em janeiro


Por Antônio Gonçalves Filho, para o Estadão

O centenário de morte do escritor russo Liev Tolstói (1828- 1910), que transcorre hoje, tem mobilizado o mundo em 2010. E por aqui, logo no início do próximo ano, trará em sua esteira o lançamento do filme A Última Estação, marcado para 28 de janeiro. O longa é baseado no livro homônimo do americano Jay Parini. Também em 2011 será publicada no Brasil uma tradução da mais ambiciosa obra do russo, Guerra e Paz. Aliás, o tradutor, Rubens Figueiredo, acaba de ganhar o prêmio Paulo Ronái da Fundação Biblioteca Nacional por sua versão para o português de Ressurrreição, o livro mais polêmico do autor.

Parini e Figueiredo falaram ao Sabático sobre sua longa convivência com a obra do gênio russo. Parini, que dá aulas no Middlebury College (Vermont, EUA), conversou com seu colega de trabalho Mario Higa (leia entrevista nesta página) sobre A Última Estação (Record), relato dos momentos finais de Tolstói. Figueiredo - que, além dos livros citados, já traduziu também o monumental Anna Kariênina, sempre para a editora Cosac Naify - atendeu à reportagem do caderno pouco depois de saber de sua premiação.

Curiosamente, tanto Jay Parini como Rubens Figueiredo, trabalhando na reconstituição da vida e da obra do russo, concluíram que Tolstói não foi aquele escritor que os biógrafos chamam de "doutrinário". Foi, sim, um reformista que, por condenar o materialismo, os governantes e a Igreja Ortodoxa Russa, sofreu a censura czarista e do clero. Para Figueiredo e Parini, o que chama atenção no ficcionista - sempre em busca de respostas - é a profusão de perguntas que faz a si e aos seus leitores.

"Tolstói aposta em respostas, mas elas são questionadas por ele mesmo e derrubadas, levando sempre a finais abertos, como o de Anna Kariênina", diz Figueiredo. Onde estaria o doutrinário no debate político-religioso do epílogo do romance, após o suicídio da adúltera Kariênina, corroída pela culpa? "O pensamento de Tolstói não sossega, ele não encontra chão estável", observa o tradutor, comparando-o ao protagonista de Ressurreição, "que está num processo de ampliação da consciência sem chegar a uma resposta".

A exemplo do aristocrata que persegue a redenção espiritual em Ressurreição, também o conde Tolstói busca em seu livro a oportunidade de corrigir um erro do passado - ambos se envolveram com criadas e as engravidaram, abandonando-as à própria sorte, sendo que, no romance, o nobre a revê anos depois no tribunal, então como uma prostituta detida sob acusação de ter roubado e envenenado um cliente. Nesse último romance escrito pelo russo, em 1899, consciente de sua culpa, o aristocrata Dmítri Ivánovitch Nekhliúdov segue a prisioneira Katusha até a Sibéria, disposto a casar - mas ela não acredita nele. O leitor reconhece no personagem o despertar de uma consciência e um sincero desejo de transformação - na época, Tolstói também já era um defensor de ideias igualitárias e pacifistas, clamando contra a injustiça praticada nos tribunais russos e o que considerava ser a hipocrisia da Igreja. O Estado e as autoridades eclesiásticas deram o troco. Ressurreição sofreu cortes, feitos pela censura czarista, sendo restaurado apenas em 1936 - versão usada para a edição brasileira.

O premiado Rubens Figueiredo lutou para publicar Ressurreição no Brasil. A fortuna crítica do livro - baseado em fatos verídicos - não registra lá fora resenhas tão entusiasmadas quanto a de seus livros anteriores, talvez porque o aristocrata Tolstói não veja a criada como a verdadeira criminosa, mas a sociedade que a condena, por ter ignorado sua condição quando mais Katusha precisava de apoio. "Vi as provas tipográficas de Ressurreição e as inúmeras correções que Tolstói fez ao lado delas, revelando o quanto ele ainda tinha a dizer", conta Figueiredo, observando que essa fúria revisional não foi um capricho sintático do autor, conhecido por suas frases longas e palavras repetidas, mas uma atitude de quem tinha sempre algo a mais a falar. O épico Guerra e Paz é um exemplo disso: o original russo tem quatro volumes e 508 personagens tirados da vida real, alguns bem conhecidos como Napoleão, julgado sem piedade por sua arrogância.

Os detratores de Tolstói o acusam do mesmo pecado - acrescentando o da inconsistência de suas crenças e da superioridade moral, as quais influenciariam seu amigo Gandhi em sua proposta de resistência pacífica. Biógrafos menos interessados em suas qualidades lembram que Tolstói esgotou o estoque de mercúrio russo para tratar de inúmeras doenças venéreas resultantes de uma agitada vida sexual, dentro e fora do casamento, antes de pregar a abstinência. Ele, ao menos, teve a honestidade de expor seu diário - e as aventuras nele reveladas - à leitura da mulher, sua colaboradora. Foi Sophia querm copiou e corrigiu os manuscritos de Guerra e Paz, mas foi também a mulher que teria envenenado o marido, segundo as más línguas.Tolstói saiu de casa em 28 de outubro de 1910, deixando uma carta conciliatória, porém poucos dias mais tarde confessou à filha Sasha que não suportava mais a malícia e a hipocrisia da esposa.

Não era a reação esperada de quem elegeu o Sermão da Montanha como guia e desejava seguir as palavras de Jesus. Tolstói alcançou relativo sucesso como líder espiritual e político, tendo inspirado anarcopacifistas com o trecho mais conhecido desse texto bíblico - oferecer a outra face quando ofendido. O czar quis comprovar ao vivo essa disposição, enviando emissários à estação ferroviária de Astapova - onde ele morreu, quando fugia de casa -, para se certificar que os seguidores de sua escola moral não o usariam, morto, como bandeira revolucionária. "Pouco se fala do esforço que seus leitores fizeram para preservar sua obra sem censura, como os estudantes que espalhavam cópias de seus manuscritos", diz Figueiredo, lembrando que vemos o escritor hoje mais como uma figura institucional do que um líder cuja casa era vasculhada pelos censores do czar e só escapou do exílio por causa de sua origem aristocrática. 

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Quando o autor está fora da tela

Adaptação cinematográfica do principal trabalho do ficcionista russo, dirigida por King Vidor, foi tratada sem reverência no caderno

O espetaculo cinematografico Guerra e paz oferece ocasião para o prosseguimento do debate em torno da validez da transposição de obras literárias, que é uma constante do cinema desde os seus primordios. Ainda hoje, apesar do apreciavel desenvolvimento da profissão de escritor cinematográfico, calcula-se em mais de um terço do total o numero de fitas cujo ponto de partida é uma obra literaria. A já longa experiencia demonstra não existir relação necessaria entre o nivel artistico do texto literario e o de sua adaptação cinematografica. "The Clansman" e "The Leopard"s Spots", duas novelas mediocres, e o proprio nome do autor, Thomas Dixon, são lembrados apenas porque foram os textos de base que Griffith utilizou em O Nascimento de uma Nação. O romance "Me Teague", de Frank Norris, há pouco reeditado, ocupa no panorama da cultura moderna uma posição incomparavelmente modesta frente a Greed, sua transposição para o cinema realizada por Stroheim. Por outro lado, a mediocridade ou as qualidades artísticas do original e da adaptação podem ser equivalentes, como foi o caso de Gone with the Wind ou de Le Diable au Corps, de Radiguet, filmado por Autant-Lara. Existem finalmente os casos em que os filmes são inferiores aos textos que os inspiraram, sendo essa a regra para as incontaveis vezes em que o cinema se aventurou a interpretar as obras-primas da literatura. O fenomeno é logico, e valerá a pena examiná-lo mais de perto em outra ocasião, bastando por ora lembrar que não tem relação com a tão falada especificidade da literatura ou do cinema, ou com a pretensa incomunicabilidade entre os dois generos. Se até hoje as adaptações de Stendhal à tela têm sido mais ou menos infelizes, algumas passagens de Senso, de Visconti, que não tem ligação direta com a obra stendhaliana, refletem as ricas possibilidades de um "beylismo" cinematográfico. Ultimamente, aliás, tem havido filmes cujo nivel artistico nada tem de afrontoso aos textos classicos que os inspiraram. (...)

A insatisfação que nos causa Guerra e Paz não se deve a nenhuma vulgarização excessiva. O nivel do espetaculo é alto sob muitos aspectos, as personagens e situações que comporta foram todas calçadas no romance. Na maior parte do tempo, porém, o espirito que Tolstoi lhes inculcara se evaporou na transposição. Houve ainda algo pior do que a incapacidade em captar a natureza das personagens ou o sentido das situações: em algumas sequencias a fita procurou valorizar precisamente aquilo que nas passagens correspondentes o romancista negou e destruiu, como os clichês historicos convencionais herdados do romantismo, pelos quais Tolstoi tinha horror.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Lapidador do dia a dia: Tchekhov retrata a gangrena social da Rússia

Por Leonardo Fróes para a Folha

"AOS QUE VIRÃO DEPOIS DE NÓS" é uma ideia que ocorre a três por dois em Tchekhov. Com pequenas variações, a frase está em muitos das centenas de seus contos e é manifestada no teatro por personagens como Verchinin, de "As Três Irmãs", Trofímov e Ânia, de "O Jardim das Cerejeiras", e Sônia, de "Tio Vânia".

O vislumbre de uma humanidade melhor em 200, 300 ou milhares de anos se contrapõe nos textos do autor ao que ele mostra com isenta objetividade: uma sociedade em fase terminal. As duas últimas décadas do século 19 impunham grandes transformações. Mas o mundo czarista de fundamento agrário, tornando-se obsoleto ante o vapor da indústria, que retalhava com o trem de ferro as fazendas, apodrecia por inércia.

Pelas futuras gerações da espécie, sacrifica-se a sociedade doente, que sofre, sobretudo, de estreiteza mental. A trajetória do humano importa mais que suas manifestações provisórias. Clinicamente, como o médico praticante que foi, Tchekhov observa e anota os sintomas que ausculta no corpo social gangrenado. Não lhe cabe tomar partido, nem ceder à tentação de opinar. Sua função é coletar os dados que os sentidos apuram. Seus contos são anamneses, às vezes inconclusivas.

Evitar o desfecho de mão única é um dos trunfos autorais que o situam num quase ponto de largada para trilhas modernas. Em vez de pontos finais, a conclusão de muitos relatos -aqui e ali alguma ação que ficará em suspenso- são hipóteses apresentadas a quem pratica a leitura. O conto não acaba, mas se interrompe. A vida continua. Que o leitor complete os finais, ou que os deixe mais abertos ainda, com base nos dados que tem aos olhos.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O romance em versos de Pushkin

MANUEL DA COSTA PINTO para a Folha de SP

A literatura russa é um fenômeno editorial, com a ampla repercussão de obras de Gógol, Dostoiévski, Tolstói e Tchekov em traduções feitas do original. Faltava a versão da obra-prima de seu fundador: "Eugênio Oneguin", de Alexandr Pushkin (1794-1837).

Já havia livros de Pushkin por aqui: a coletânea de contos "A Dama de Espadas" (Editora 34), as peças de "Pequenas Tragédias" e o drama histórico "Boris Godunov" (ed. Globo).

Nenhum deles oferece as dificuldades de "Eugênio Oneguin", caso único, entre os clássicos da literatura moderna, de um romance escrito em versos. A matéria-prima de Pushkin, entretanto, nada tem que ver com os épicos da Antiguidade. Trata-se de um enredo de desencontro amoroso com elementos do romantismo literário.

Oneguin é um "dandy", um nobre galante calcado na figura do poeta inglês Byron, que alterna momentos de dissipação com o "spleen", o tédio de quem viveu a intensidade a ponto de perceber seu vazio. Ele conhece o poeta Vladimir Lenski e as irmãs Olga (prometida de Lenski) e Tatiana Lárin, que se apaixona por Oneguin e escreve uma declaração que ele rejeita.

Durante um baile, Oneguin corteja Olga e é desafiado a um duelo por Lenski, que morre no confronto. Não há vilania em Oneguin, apenas uma altivez aristocrática cuja frivolidade ele percebe no momento em que reencontra Tatiana já casada e madura, uma "majestosa legisladora de salões", tão fiel ao marido quanto ao amor juvenil a que renuncia.

A singularidade do livro está na forma: estrofes compostas por sonetos sem divisão de quartetos e tercetos --com os 14 versos formando microcapítulos cadenciados por rimas seguidas com notável rigor pelo tradutor Dário Moreira de Castro Alves.

Detalhe fundamental: não é só a primeira versão da obra de Pushkin no Brasil. É a primeira tradução para língua portuguesa. Deve ser saudada como acontecimento histórico.

LIVRO
"EUGÊNIO ONEGUIN"
AUTOR: Alexandr Pushkin
TRADUÇÃO: Dário Moreira de Castro Alves
EDITORA: Record
(288 págs., R$ 47,90)

CONEXÃO

DISCO
"EUGEN ONEGIN"
Na interpretação da Staatskapelle Dresden, sob a batuta de James Levine, a ópera de Tchaikovsky permite ouvir como o texto de Pushkin soa na língua original.
Autor: Pyotr Ilyich Tchaikovsky
Distribuição:
Deutsche Grammophon
(R$ 145,60, CD duplo)

DVD
"PAIXÃO PROIBIDA"
Essa adaptação (cujo título em inglês, "Onegin", não esconde sua fonte pushkiniana) tem Liv Tyler e Ralph Fiennes, irmão da diretora, como protagonistas.
Direção: Martha Fiennes
Distribuição: Escala (R$ 19,90) fora de catálogo

sábado, 10 de julho de 2010

Púchkin: o Dom Casmurro da Rússia

Por EULER DE FRANÇA BELÉM, retirado da revista Bula.

Há uma preciosidade no mercado: “O Botão de Púchkin” (o título, aparentemente medonho, tem explicação, que não vou revelar), de Serena Vitale (Editora Record, 416 páginas). O livro da scholar italiana não é uma biografia de Púchkin (optei por manter o acento, como fazem Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra, tradutores do russo do primeiro time), maior poeta russo, e, sim, um relato de seus últimos dias. Púchkin morreu em duelo com o francês Georges Charles d’Anthès, em 1837, aos 37 anos. O poeta bateu-se com d’Anthès porque cartas anônimas distribuídas a vários de seus amigos revelaram que o cavaleiro da guarda russa tinha um caso, ou quase, com sua mulher, Natália Puchkina.

Para evitar o duelo, d’Anthès casou-se com uma irmã de Natália, Ekaterina. Púchkin desistiu de bater-se com o oficial, mas, acreditando que as cartas anônimas haviam sido escritas pelo embaixador holandês Jacob van Heeckeren, pai adotivo (e, talvez, amante) de d’Anthès, decidiu desafiá-lo. D’Anthès assumiu as dores do pai-amante e decidiu aceitar a disputa. Ele atirou primeiro e feriu mortalmente Púchkin. Este também atirou, mas d’Anthès saiu praticamente ileso. Voltou para a França, onde morreu, senador e rico, em 1895.

Serena Vitale é uma pesquisadora infatigável, mas, ao contrário de muitos acadêmicos, escreve muitíssimo bem, o que significa que seu texto é preciso, sem muletas como “em última instância” e “no bojo”. “Botão de Púchkin” é livro acadêmico, em termos de pesquisa exaustiva, mas escrito quase como um romance policial. Trata-se de uma investigação policial, judicial e históri(c)a de primeira grandeza. Não se trata de um exame da obra do poeta.

O leitor bisbilhoteiro (qual não é?) pode perguntar: Natália Puchkina traiu realmente Púchkin? Quem escreveu as cartas anônimas? Púchkin teve mesmo um caso com a cunhada Alexandrine Gontcharova? Serena Vitale apresenta evidências de que o ciumento Púchkin teve, sim, um caso com a cunhada. Se busca respostas exatas, o leitor pode se decepcionar com a seriedade da pesquisa de Serena Vitale. “Não somos narradores oniscientes, mas apenas pacientes restauradores de um mosaico a que faltam numerosos fragmentos”, ressalva (página 177). A professora especula que as cartas foram escritas pelo príncipe Piotr Dolgorukov, mas lista outros possíveis autores. Mesmo rigorosa, raramente é conclusiva.

Não há provas cabais de que Natália traiu, fisicamente, Púchkin, mas é fato que adorava a companhia de d’Anthès, com quem dançava com freqüência. Se a traição pode ser vista de uma forma mais espiritual, sim, Natália traiu o marido, pois flertava abertamente com d’Anthès, seu cunhado. “Existem duas espécies de cornos; aqueles que o são de fato sabem como se comportar; outros o são pela graça do público, e o caso deles é o mais embaraçoso: é o meu”, escreveu o poeta. Ele não tinha certeza, pois, da infidelidade de Natália, 13 anos mais nova. A tragédia russa antecipa “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. Púchkin é Bentinho — Natália, Capitu.

Uma história interessante: ao descobrir que toda a sua correspondência era violada pela polícia, Púchkin começou a escrever cartas para sua mulher, com críticas diretas e indiretas às políticas do czar. O objetivo era que o czar soubesse de sua insatisfação. Outra revelação: o poeta teve um caso rápido com Dolly, bisneta de Kutuzov, o general que derrotou Napoleão, em 1812. Tido como “pai” da grande literatura russa, Púchkin tinha consciência de seu talento e singularidade. Moribundo, o poeta disse: “Aqui não viverei, eu sei”. Serena Vitale esclarece: “Aqui: no século” (o 19). Ele sabia de sua eternidade. Como Dostoiévski, era um devedor contumaz. “O czar [que dizia ser Púchkin “o homem mais inteligente da Rússia”] não me permite ser proprietário de terras nem jornalista. Escrever livros por dinheiro, Deus é testemunha, não posso”, escreveu Púchkin, em carta para Natália.

Defeito da edição brasileira: Serena Vitale conta que Natália Puchkina era “uma das mulheres mais bonitas de São Petersburgo, a cujas graças nem o czar era indiferente”. No entanto, não há sequer um retrato que possa comprová-lo. A aquarela (de V. Gray) que ilustra este texto colhi no livro “Prosa Escogida”, de Púchkin, publicado pela Editorial Progresso. Púchkin é autor de “Eugênio Oneguin”, romance em versos, e, entre outros, “A Filha do Capitão”. Eugênio Oneguin foi adaptado para o cinema com o título de “Paixão Proibida”, com Ralph Fiennes e Liv Tyler.

No excelente “Adorável Comunista — História Política, Charme e Confidências de Fernando Sant’Anna” (Versal Editores), de Antônio Risério, uma informação de primeira: “O primeiro tradutor de literatura brasileira para o russo foi um grande poeta: Púchkin. E o texto escolhido por Púchkin foi a lira LXXI de Tomás Antônio Gonzaga, que vai aparecer, na coletânea de obras do poeta russo, sob o título de S Portugálskovo (Tam zvezdá zari vzochlá...) — Do português (lá surgiu a estrela d’alva...)”. A tradução foi feita a partir do francês.

domingo, 27 de junho de 2010

CULT: Ressurreição

Em seu último grande romance, Tolstói mantém viva a consciência individual
Moscou, séc. 19

Muitos se perguntam por que será que os romances dos “grandes russos” continuam sendo lidos com afã, mesmo hoje, passados quase 200 anos de seu nascimento. Não é apenas pelo fato de eles se preocuparem profundamente com as questões mais pungentes da humanidade e proporem as soluções a que eles chegaram, mas – o que mais espanta – é ver como a história, no decorrer desses séculos, tornou esses conteúdos cada vez mais atuais.

O caso de Lev Nikolaevitch Tolstói (1828-1910) é sintomático. Em particular, em Ressurreição, o último de seus romances longos, iniciado em 1889 e publicado dez anos depois, cuja trama lhe veio de uma conversa com um jurista russo de grande renome (o mesmo que fornecera a Dostoiévski informações sobre casos de justiça criminal, aproveitados em Os Irmãos Karamazov). As descrições cuidadosamente fundamentadas da indiscutível injustiça do sistema judiciário e prisional, na prática e, principalmente, em seus princípios – na Rússia e no mundo –, são gritantes.

A trama é simples, como é simples e clara a linguagem que a narra, que o tradutor conservou. Uma menina particularmente graciosa, Katerina Mikháilovna Máslova (Kátia), filha de uma criada e de pai desconhecido, é semiadotada por duas solteironas da nobreza que vivem em sua propriedade rural, tias de Dmítri Ivánovitch Nekhliúdov, o protagonista da história. Por um lado, Kátia é educada como moça de família, por outro, serve como uma espécie de criada às duas solteironas. Nas férias, o jovem Nekhliúdov, ainda estudante, se apaixona pela linda moça em que Kátia se transformou e, sem que seja confessado, seu amor é correspondido e narrado na primeira parte do livro, por meio de muitas metáforas encantadoras, como mais um dos poéticos idílios bucólicos em que Tolstói era mestre.

Infortúnios
Logo depois começam os males. De volta à capital, o jovem nobre é engajado no exército e, na vida ociosa do oficialato, feita de duelos, bebedeiras, carteado e devassidão, perde sua pureza rousseauniana e se transforma ele mesmo em libertino. Por ocasião de uma volta ao campo, seduz a pobre Kátia, ainda pura e apaixonada. Sua sina é implacável. Mãe solteira, é expulsa pelas tias e, após algumas experiências em que seu trabalho sempre esbarra na concupiscência masculina, acaba entrando para um famoso prostíbulo da capital, onde é acusada de um assassinato por envenenamento, que ela não cometeu.

O destino quer que Nekhliúdov, já mais maduro e cheio de dúvidas quanto à justiça das instituições e da sua própria conduta, quase noivo de Missi, seja convocado como membro do júri que decidirá a sorte da moça. O choque que ele sofre ao descobrir que a acusada é a pobre Kátia, por cuja ruína ele se sente responsável, repercute nele dramaticamente.

Decide então desfazer-se de suas propriedades em favor dos camponeses (aqui Tolstói revela-se adepto das teorias de Henry George: “não dar o mesmo a todos, mas recolhê-lo em uma comunidade que o distribuiria etc.”) e acompanhar a ré, obviamente sentenciada a trabalhos forçados na Sibéria pelos altos funcionários desumanos e corruptos do sistema infame. As vergastadas com que Tolstói castiga esse sistema e a certeira descrição dos ambientes e dos personagens são pontos altos do livro, dificilmente igualados, inclusive porque ele consegue manter, nesse ambiente kafkiano, o suspense e a dinamicidade do desenrolar da história.

Oposição ao catolicismo ortodoxo
Entre os funcionários, não escapam os popes – padres da Igreja Ortodoxa contra cujos dogmas Tolstói se insurgiu. Conforme se sabe, ele viria a ser excomungado, ao propor os cinco pontos do Sermão da Montanha (Evangelho segundo Mateus) como guia para o comportamento moral: pacifismo e consideração por todos, sem distinção; castidade e fidelidade; descomprometimento via juramento; perdão e oferecimento da “outra face”; amor e piedade para com o ser humano, inclusive em relação aos inimigos.

Tolstói associava a Deus a ideia do Bem, e o que vai ditar aos homens o que é esse Bem é sua própria consciência: “Entender a obra do Senhor não está em meu poder” – reflete Nekhlíudov. “Mas cumprir sua vontade, inscrita na minha consciência, isso está em meu poder e isso eu sei de modo indubitável.” Tudo está em não deturpar nem deixar amortecer a consciência dentro de si; essa é a chave da proposta tolstoiana, sabiamente exposta neste seu último grande romance.

CULT: Tchekhov 150 anos

Evento reúne em São Paulo artistas e intelectuais envolvidos com obra do autor

Peças e leituras dramáticas fazem parte da homenagem prestada a Tchekhov

Série de palestras, peças, oficinas e leituras dramáticas que ocorre ao longo de junho homenageia os 150 anos de nascimento do escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904). No evento Tchekhov 150 anos, estarão presentes artistas e intelectuais envolvidos com a obra do autor, como o filósofo Luiz Felipe Pondé, o professor e tradutor Boris Schnaiderman e o diretor do grupo TAPA, Eduardo Tolentino.

Eloisa Vilela Fusco, uma das organizadoras do evento, explica por que a obra do escritor se mantém atual: “A questão do humano presente em Tchekhov é o que nós todos buscamos. Isso se resume a fazer com que um ato pequeno tenha sentido dentro de um contexto muito maior. Eu sinto que as pessoas continuam buscando algo que elas possam fazer e que lhes dê sentido”.

A ideia da homenagem surgiu quando a Cia. dos Desejos, da qual Eloisa faz parte, começou a montar a peça As Três Irmãs, que abre a programação do evento: “Como nós estávamos estudando a peça e o autor, tínhamos vontade de falar da obra de Tchekhov como um todo, de outras peças, como A Gaivota e Jardim das Cerejeiras”. Confira o depoimento das professoras Aurora Bernardini e Elena Vássina, que participam da homenagem ao autor russo.

Aurora Bernardini, professora de língua e literatura russa da USP
Meu primeiro contato com Tchekhov foi em inglês. Quando estudante de anglo-germânicas, fiz um trabalho comparando dois contos: “ Bliss” (“Beatitude”, mas aqui traduzido por “Felicidade”), de Katherine Mansfield com “The loved one” ( “Dúchetchka” de Tchekhov, aqui traduzido como “A queridinha”). Ambos os contos tratam do amor de duas mulheres e ambos são muito verdadeiros.

Meu segundo contato com Tchekhov foi em russo, com um pequeno sketch satírico que traduzimos para o português, no Curso Livre de Língua Russa: “O bilhete premiado”. Conheci um outro Tchekhov, o humorista que escrevia para os jornais pequenas cenas que tinham sucesso e lhe permitiam pagar os estudos e ajudar a família. Mais tarde, tornei-me leitora de praticamente toda a sua obra, tendo traduzido alguns contos e algumas peças breves, que foram publicados.

Elena Vássina, pesquisadora de literatura russa e professora da USP
Meu primeiro contato com a obra do Tchekhov foi na infância. Acho que eu ainda não sabia ler e meu avô meu lia os contos infantis. Eu me lembro que na infância eu assisti a um filme maravilhoso, que era para adultos, chamado Dama do Cachorrinho; o filme foi premiado no Festival de Cannes em 1960. Depois, como sou russa, já na segunda série, comecei a estudar e a ler a obra de Tchekhov e depois não parei mais.

O ano internacional do Tchekhov é muito importante e atual para a literatura e o teatro contemporâneos. Neste ano, o evento é comemorado no mundo inteiro, então é eu acho importante que o Brasil está no mundo e não fora do mundo. Tchekhov inaugurou a nova época no teatro moderno e contemporâneo, abriu caminhos para o teatro dos séculos 20 e 21. Ele é considerado o Shakespeare do século 20 e é um dos autores mais montados no mundo inteiro.

Tchekhov 150 anos
Caixa Cultural São Paulo (Sé)
Praça da Sé, 111 – Centro
03 a 27 de junho
Entrada Franca

segunda-feira, 7 de junho de 2010

150 anos de Tchekhov, o médico que amava os palcos

Encontro em SP rende tributo à obra do dramaturgo e escritor russo, considerado pai do teatro realista
Maria Eugênia de Menezes
SÃO PAULO - Diante do sem-número de intelectuais, atores e diretores que chegavam em procissão do mundo inteiro, o presidente russo Dmitri Medvedev não teve dúvidas. Deixou de lado questões protocolares e cedeu seu avião oficial para que o grupo pudesse ir até Taganrog, cidade onde, exatamente 150 anos antes, nascera Anton Tchekhov (1860-1904).

Revelador, o ato de Medvedev dá a medida da importância que o aniversário do grande contista e dramaturgo, comemorado em janeiro deste ano, teve na Rússia. Mas não é apenas lá que a efeméride foi lembrada. Por aqui, ainda que com atraso de alguns meses, a data também deve ensejar comemorações, como o evento Tchekhov 150 Anos, que a Caixa Cultural Sé abre hoje.

Na extensa grade de atividades, apresentações teatrais, leituras dramáticas, palestras e oficinas devem retomar o legado do escritor, que alterou os rumos da prosa moderna com sua escrita sem excessos e seu gosto pelo realismo da existência cotidiana da burguesia. "Ele encerra a época de ouro da literatura russa, o período de Tolstoi e Dostoievski, e abre os caminhos para algo novo. Especialmente após a 2ª Guerra, existe um forte movimento de redescoberta de sua obra e Tchekhov foi alçado à condição de Shakespeare do século 20", comenta a pesquisadora russa e professora da USP, Elena Vássina, que participa de debate no dia 23.

Além de Elena, também integram a programação, que se estende até o dia 27, artistas e intelectuais, como o tradutor Boris Schnaiderman e os diretores Eduardo Tolentino, Maria Thais e Francisco Medeiros.

Natureza humana. Responsável por uma aclamada montagem de A Gaivota, na década de 1990, Medeiros retornou à obra do autor com o drama Réquiem. A peca, a ser apresentada em três sessões na Caixa Cultural, foi escrita pelo dramaturgo israelense Hanoch Levin a partir de três contos de Tchekhov e versa sobre a desilusão de um marceneiro, artesão de caixões, que, ao chegar à velhice, depara-se com a solidão. "Aqui, da mesma forma como acontece em O Jardim das Cerejeiras, o que importa é o que está subliminar", diz o diretor. "Tchekhov foi, sobretudo, um investigador dos mistérios da natureza humana."

Das criações tchekhovianas para o teatro, o público poderá conferir peças como A Gaivota, em leitura dramática conduzida por Denise Weinberg, e As Três Irmãs, em montagem da Cia. dos Desejos. Também merece relevo dentro da programação a extensa correspondência do dramaturgo, ressaltada em duas das encenações apresentadas: Aponto Tchecov, dirigida por Fernando Neves, e O Ruído Branco da Palavra Noite, da Cia. Auto-Retrato.

Mais conhecido por seu trabalho de investigação sobre o circo-teatro, Fernando Neves lança-se à aventura de exumar as cartas trocadas entre o escritor e seu editor, Aleksei Suvórin.

Já no caso de O Ruído..., o foco recai sobre a epistolografia dos grandes nomes do Teatro de Arte de Moscou. Foi debruçada sobre o livro O Cotidiano de Uma Lenda - Cartas do Teatro de Arte de Moscou, de Cristiane Layher Takeda, que a dupla de diretores Caetano Gotardo e Marina Tranjan colheu testemunhos da relação de Tchekhov com figuras essenciais, como Nemiróvitch-Dantchenko e Konstantin Stanislavski.

Em cena, os fragmentos lançam luz sobre a grande revolução teatral em curso na Rússia daquela época, tratam de episódios da vida pessoal do "pai do realismo", e também aparecem pontilhados por excertos de textos como Tio Vânia. "Havia nessas cartas uma inquietação, e esse é um sentimento que permeia também as suas peças", comenta Gotardo. "Equivocadamente, fala-se muito na falta de ação dos seus personagens, mas existe neles sempre um movimento, uma vontade, ainda que frustrada, de romper com esse imobilismo."

Programação

1ª semana
3/6
19 h - Leitura dramática da peça O Jardim das Cerejeiras, de Anton Tchekhov, com direção de Maria Thais.
4 e 5/6
19 h - Peça As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, com a Cia. dos Desejos.
6/6
18 h - Peça As Três Irmãs
2ª semana
9/6
18h30 - Palestra Tchekhov e a Estética do Infinito, com Luiz Felipe Pondé
10/6
19 h - Interpretação e Linguagem, encontro com Denise Weinberg, Caetano Gotardo e Maria Thais
11 e 12/6
19 h - Peça O Ruído Branco da Palavra Noite, com a Cia. Auto-Retrato. Direção e dramaturgia Caetano Gotardo e Marina Tranjan
13/6
18 h - Peça O Ruído Branco da Palavra Noite
3ª semana
17/6
19 h - Leitura dramática da peça A Gaivota, de Anton Chekhov,com direção de Denise Weinberg
18 e 19/6
19h - Peça Réquiem, de Hanoch Levin, com direção de Francisco Medeiros
20/6
18h - Peça Réquiem
4ª semana
23/6
19 h - Palestra sobre teatro e literatura russa com Elena Vássina e Boris Schnaiderman
24/6
19 h - O Texto e a Escolha da Encenação, encontro com Marina Tranjan, Eduardo Tolentino de Araújo e Francisco Medeiros
25/6
19 h - Peça Aponto Tchekhov, de Alfredo Tambeiro, com direção de Fernando Neves
26/6
10 h às 13 h - Oficina de interpretação Elementos da Montagem da Peça As Três Irmãs, com a Cia. dos Desejos
19 h - Peça Aponto Tchekhov
27/6
10 h às 13 h - Oficina de interpretação Elementos da Montagem da Peça As Três Irmãs, com a Cia. dos Desejos
18h - Peça Aponto Tchekhov

TCHEKHOV: 150 ANOS - Caixa Cultural (100 lugares). Praça da Sé, 111, 3321-4400. 4ª a dom., 18h, 18h30, 19h. Grátis. Até 27/6

Fonte: Estadão

sábado, 5 de junho de 2010

O espírito livre que faltou à Rússia

Pela primeira vez, é traduzido no Brasil o clássico Eugênio Oneguin, de Alexander Pushkin. Considerada uma pedra fundamental da literatura russa, a obra é também o perfeito antídoto para o autoritarismo que marca a história do país
Nelson Ascher

DÂNDI IRÔNICO: Pushkin: oposição veemente à tirania czarista e morte em um duelo, por ciúme

Alexander Sergueievitch Pushkin (1799-1837), pai da literatura russa, fundou a tradição que deu ao mundo Gógol, Dostoievski, Tolstoi e Tchecov, todos reconhecidos e gratos a seu predecessor. Poeta, romancista, contista, dramaturgo e historiador, ele criou, numa carreira de duas décadas, a poesia, os contos e as peças que colocaram seu país no mapa cultural da Europa. Seus com-patriotas consideram Eugênio Oneguin (Record; 288 páginas; 47,90 reais) não só sua obra-prima, mas também um monumento que rivaliza com a Divina Comédia de Dante, o Fausto de Goethe e as tragédias de Shakespeare. Livro singular, esse romance em versos, antes inédito em nossa língua, sai agora finalmente em português graças a um trabalho de mais de dez anos do tradutor Dário Moreira de Castro Alves.

Oriundo da nobreza empobrecida e também de um remoto ancestral africano, Pushkin cresceu numa Rússia que,
devido às guerras napoleônicas, começara a participar do concerto das nações. Quando nasceu, seu país não possuía ainda nem uma literatura de verdade nem uma linguagem capaz de acolhê-la, e até a aristocracia de seu tempo preferia falar francês. Jovem rebelde, apreciador das festas, da bebida, das belas mulheres e do jogo, sua existência foi sempre agitada. Contrário à tirania absolutista do czar, foi diversas vezes exilado em vários cantos do império. Após inúmeras aventuras, o poeta desposou uma beldade, Natalia Goncharova, mas, provocado por cartas anônimas que o levaram a duvidar da fidelidade da mulher, acabou morto em um duelo, aos 37 anos.

Escrita ao longo de sete anos, Eugênio Oneguin é uma obra difícil de definir. Embora seja um romance e flua, sem obstáculos, como a melhor prosa, está escrita em estrofes rimadas de catorze versos que equivalem, cada qual, a um soneto – de modo que o todo funciona seja como uma coletânea de poemas individuais, seja como um longo poema. Essa fusão perfeita de prosa e verso equivaleria, em termos brasileiros, a um texto no qual se combinassem harmonicamente o olho clínico e a elegância de Machado de Assis com o talento poético de um Manuel Bandeira ou de um Vinicius de Moraes. Não é à toa que se trata de obra dificílima de traduzir. Só em inglês já saíram mais de dez versões, nenhuma considerada inteiramente satisfatória. O trabalho de Dário Moreira de Castro Alves é sério e empenhado, mas há muito a ser aperfeiçoado em sua versificação: a tradução de uma obra dessas é trabalho inacabável.

Eugênio Oneguin, o protagonista, é um rapaz mimado que, após herdar uma fortuna, abandona entediado os prazeres da capital e se muda para sua propriedade rural. O fio central da história são os desencontros amorosos de Eugênio e uma mulher que ele conhece na província, Tatiana. Mas, como observou Vladimir Nabokov, admirador do livro e um de seus tradutores para o inglês, Pushkin faz um compêndio enciclopédico da vida russa de então, de seus costumes e surpresas, de suas alegrias e desencantos. Não há, para o autor, detalhe irrelevante. Seus versos conseguem deleitar o leitor apresentando os pratos de um banquete ou descrevendo um vestido.

O escritor argentino Jorge Luis Borges observou que os países tendem a eleger como seus máximos representantes literários os autores que menos refletem o caráter nacional: um Shakespeare hiperbólico numa Inglaterra afeita a se expressar sutilmente nas entrelinhas, um Goethe universalista numa Alemanha nacionalista, um Cervantes bem-humorado e tolerante na sisuda Espanha da Inquisição. A observação do argentino se aplica ainda com maior propriedade a Pushkin, que quase nada tem a ver com o que se tornou comum esperar de um escritor russo. Os dilemas da interioridade dilacerada, o desconforto existencial, as singularidades da alma russa, o patriotismo exacerbado, o fervor religioso, a militância política, a obsessão pela sociedade e sua reforma: nada disso atraía o jovem dândi irônico e bon-vivant, alheio a grandes arroubos emocionais. Embora amasse seu país e seu povo e desprezasse a tirania, o poeta era um individualista. Borges sugere que, nos autores arquetípicos, as nações talvez busquem um antídoto para o que têm de pior. Como que para confirmá-lo, Pushkin encarna a liberdade de espírito que tanto faltou nos dois últimos séculos de história russa.

O fundador da língua russa
Alexander Pushkin (1799-1837) é tido como o pai da literatura na Rússia – avaliação confirmada pelos grandes escritores do país

"Pushkin apareceu quando nascia nossa autoconsciência", diz Fiodor Dostoiévski (1821-1881). O autor de Crime e Castigo, nacionalista feroz, quis fazer do antecessor um profeta do eslavismo – embora Pushkin fosse mais cosmopolita













Leon Tolstói (1828-1910), em suas cartas e diários, menciona Pushkin várias vezes, sempre com reverência. O autor de Guerra e Paz admirava a precisão e a elegância da prosa de Pushkin











Prêmio Nobel de 1987, o poeta Joseph Brodsky (1940-1996) – um dissidente da União Soviética – reconhecia em Pushkin o escritor que conferiu dignidade ao idioma russo. "Ele deu à nação russa sua linguagem literária e, portanto, sua sensibilidade", escreveu

Fonte: Veja 09/06/10