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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Lançamentos de fim de ano

Os fãs de literatura russa nunca tiveram um natal tão repleto de lançamentos como o de 2011. Primeiro tenho de voltar alguns meses para lembrar a todos do lançamento silencioso de Minha Vida (Моя жизнь), de Tchékhov, pela editora 34. Lançado originalmente em 1896, Minha Vida se destaca na bibliografia de Tchékhov como uma de suas obras mais extensas. O livro narra a história de Missail Póloznev, jovem que troca o conforto familiar pela vida proletária, tema recorrente nas obras dos autores que apareceriam mais tarde na Russia Soviética, porém incomum na obra de Tchékhov.


Minha vida: conto de um provinciano
Anton Chekhov
Editora 34
Tradução de Denise Sales
Editora 34
160 pag
R$35







O outro lançamento da editora 34, Nova antologia do conto russo, faz referência direta a Antologia do conto russo, coleção em oito volumes da editora Lux lançada em 1961 que abriu muitas portas pra literatura russa no país. A Nova antologia tem valor quase histórico no mercado editorial por conter autores inéditos no Brasil, como Nicolai Karamzin, fundador da prosa russa, ou Vsiévolod Gárchin, um dos maiores contistas da Russia do século XIX desconhecido no ocidente. Além destes, encontramos alguns velhos conhecidos: Dostoiévski, Tolstói, Gógol, Tchékhov, Púchkin, Liérmontov e Turguêniev, cobrindo dois séculos de prosa russa de maneira unica.

Nova antologia do conto russo 
(1792-1998)
Organização de Bruno Gomide
Editora 34
648 pag
R$74







A Ateliê Editorial lança Teatro Russo - Literatura e Espetáculo, das professoras Elena Vássina e Arlete Cavalieri: "Esta publicação traz um amplo debate sobre os  mais variados aspectos, que  cercam a história e a estética da arte teatral na Rússia. O exame  atento da interação orgânica entre as diferentes linguagens, que conformam o ato teatral, confere aos textos aqui presentes extremo interesse pelo alto grau de inovação investigativa na abordagem de questões cruciais para os estudos do fenômeno do teatro, tais como a arte do ator e a do encenador, a função do diretor, o papel do dramaturgo e do texto literário,  a criação do cenógrafo e do coreógrafo na estruturação do texto cênico."

Teatro Russo - Literatura e Espetáculo
Elena Vássina e Arlete Cavalieri
Ateliê Editorial
432 pag
R$59










Por fim, depois de surpreendentes 142 anos após o lançamento original da obra, os brasileiros poderão ler pela primeira vez em tradução direta do russo, Guerra e Paz (Война и миръ) de Tolstói (Cosac Naify). Esta edição encerra um capítulo na história editorial brasileira, iniciado há mais ou menos uma década, quando os clássicos da literatura russa foram pouco a pouco recebendo o tratamento merecido das nossas editoras. Rubens Figueiredo, já famoso por traduzir outros clássicos de Tolstói, demorou três anos para traduzir a obra que levou cinco exaustivos anos de pesquisa, escrita e reescrita de Tolstói (e sua esposa, claro). Antes tarde do que nunca.

Guerra e Paz
Liev Tolstói
Tradução de Rubens Figueiredo
Cosac Naify
R$198









Links adicionais

domingo, 27 de novembro de 2011

Lançamento de Contos de Sebastopol, de Tolstói

Contos de Sebastopol
Liev Tolstói
Tradução: Sonia Branco
Editora: Hedra
ISBN: 9788577152551
R$ 42,00
160 páginas

Liev Tolstói (1828-1910) nasceu em uma família da alta nobreza, ficou órfão ainda pequeno e recebeu de herança a propriedade Iásnaia Poliána, onde viveu a maior parte de sua vida, e que veio a se tornar fonte primordial para o desenvolvimento de suas idéias e ações. Sem completar nenhuma formação e entediado com a vida aristocrática, engajou-se, em 1851, nos exércitos do Cáucaso, seguindo depois para a Guerra da Crimeia. Nessa mesma década, escreveu suas primeiras obras, já obtendo boa recepção de crítica e público. Nos anos 60, dedicou-se a atividades pedagógicas fundando escola em suas terras, e iniciou-se o ciclo dos seus grandes romances. Nos anos 80 atravessou crise de ordem moral e religiosa que marcou sua produção literária. Em 1910, deixou suas terras para tornar-se peregrino, mas, dias depois, contraiu uma pneumonia, vindo a falecer na pequena estação ferroviária de Astápov. 

Contos de Sebastopol constitui-se por três relatos escritos em momentos distintos da Guerra da Crimeia. Tendo servido como segundo-tenente num regimento de artilharia durante a guerra, Tolstói reconta com minúcia episódios ocorridos durante o cerco de Sebastopol, ao mesmo tempo em que tece uma crítica contundente aos horrores da guerra. No entanto, seu veio narrativo, realizado com grande sabor, não se limita a simples descrições nem ao mero relato de fatos. Conhecedor atento da alma humana, Tolstói a explora com perspicácia, pintando com detalhes as reações dos soldados e oficiais diante das atrocidades vivenciadas e a luta por eles travada entre o desejo de escapar de situações-limite e o anseio de glória e condecorações. Os contos de Sebastopol, inéditos em português, constituem um livro extraordinário, não só pela habilidade e fineza com que o autor trata de situações vividas por ele mesmo, como pelo retrato que oferece ao leitor do desenvolvimento de um autor que irá se tornar um dos maiores expoentes da literatura universal. Tradução inédita em língua portuguesa, direta do russo.

Sonia Branco é professora de Literatura Russa na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com pesquisas e publicações na área de crítica literária russa do século XIX, e membro fundador da Sociedade Brasileira Dostoiévski e do Centro Brasileiro de Estudos Russos. Traduziu Os Cossacos de Tolstói, Águas de Primavera de Turguêniev e a peça A tempestade de Ostróvski, obras ainda não publicadas.
A Editora Hedra e a Livraria da Travessa convidam para o lançamento da edição no dia 29 de novembro, com palestra da tradutora Sonia Branco.

Serviço
Livraria da Travessa • Auditório
Shopping Leblon • Avenida Afrânio de Melo 
Franco, 290 • 2º piso
dia 29.11.2011  às 19h30
Rio de Janeiro/RJ

sábado, 19 de novembro de 2011

O romancista tradutor

Rubens Figueiredo, o autor nacional mais premiado deste ano, lança a primeira tradução brasileira de Guerra e paz, de Tolstói

Luís Antônio Giron para a revista Época

Rubens Figueiredo

As funções do ficcionista e do tradutor parecem se excluir. Um se dedica a suas criações e não tem tempo para pensar em outros autores, quanto mais traduzi-los. O outro se ocupa em passar textos alheios para o idioma vernáculo, e sua assinatura é ofuscada pela dos autores. Em Rubens Figueiredo, ambos se fundem na mesma pessoa. Ele escreve ficção e traduz com igual entusiasmo. Esse trânsito dá a seu trabalho uma qualidade peculiar. Seus contos e romances – oito em 30 anos de carreira – falam de memória e cotidiano, com doses de sarcasmo e crítica. As 70 traduções que fez do inglês e nove do russo exibem uma fluência difícil de encontrar numa área cada vez mais entregue a amadores e arrivistas. 

Neste ano, Figueiredo é autor de duas façanhas. Tornou-se o escritor mais premiado do Brasil ao ganhar os prestigiosos – e bem pagos – prêmios São Paulo de Literatura (R$ 200 mil) e Portugal Telecom (R$ 100 mil) por seu último romance, Passageiro do fim do dia (Companhia das Letras, 200 páginas, R$ 40), de 2010. A segunda façanha está em lançar nesta semana a tradução do romance Guerra e paz, de Liev Tolstói (CosacNaify, 2.536 páginas em dois volumes, R$ 198). Trata-se da primeira tradução brasileira feita diretamente do russo da obra-prima de Tolstói (1828-1910), publicada 142 anos atrás.

Mesmo assim, ele não se acha consagrado. “Fiquei surpreso com os elogios”, diz. “Mas sigo no meu canto, fazendo o que sempre fiz.” Aos 55 anos, Rubens é um carioca pacato, casado há 20 com a escritora Leni Cordeiro. Tem dois enteados e vive entre o Rio de Janeiro e a cidade serrana de Teresópolis. Na serra, gosta de escrever. Lá terminou Guerra e paz e seu último romance.

Tolstói

Sua produção não o impede – nem o poupa – de trabalhar. Professor do ensino médio há mais de 30 anos, ele dá aulas de português no curso noturno e no supletivo do colégio estadual Manoel Cícero, na Gávea. Ele se formou e fez mestrado em português e russo na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Começou nos anos 1990 a traduzir ficção em língua inglesa, livros de Paul Auster e Susan Sontag. Há dez anos, passou aos clássicos russos: Pais e filhos, de Ivan Turguêniev, contos de Anton Tchékhov e dois romances de Tolstói: Anna Kariênina e Ressurreição, entre outros. “Cheguei a Tolstói a pedido dos editores”, diz. “Mas ele acabou por marcar minha vida.” 

Nada disso havia no início, quando fazia humor – “Talento de família”, diz (é irmão de Reinaldo Figueiredo, redator de humor da TV Globo). Seus três primeiros livros – O mistério da samambaia bailarina (1986), Essa maldita farinha (1987) e A festa do milênio (1990) – eram cômicos. “A vida me parecia leve na juventude”, diz. “Curiosamente, o humor foi diminuindo de livro para livro.”

Guerra e Paz
Passageiro do fim do dia tem um tom sério: relata um dia na vida de Pedro – quase homônimo de um dos protagonistas de Guerra e paz, Pierre. Pedro é pobre. Num ônibus, dirigindo-se à casa da namorada na favela, ele pensa na vida. Ao saltar, já não é o mesmo, pois se dá conta da opressão e da finitude, as grandes questões de Tolstói. A influência não é casual. Figueiredo está às voltas com ele há sete anos, três com Guerra e paz. “Tolstói me impressiona pela consciência crítica”, diz. “Assim, ele questiona o caráter científico da história e demonstra a força do acaso. Despreza os heróis. Nivela generais, camponeses, animais e plantas.”

A transformação do pobre Pedro lembra a do nobre Pierre. Ele também amadurece, só que ao longo de 20 anos. De 1805 a 1825, esse corpulento filho ilegítimo de um conde envolve-se em orgias, herda a fortuna do pai, casa-se com a bela princesa Hélène, separa-se ao descobrir que ela é “depravada”, entra na Maçonaria e, apesar de pacifista, luta na guerra. Casa-se com a plácida Natasha e se estabelece. Nesse meio-tempo, as tropas napoleônicas invadem a Rússia e são derrotadas pelo exército do czar Alexandre I em 1812. A conquista da paz interior de Pierre corresponde à da paz nacional. Escrito entre 1863 e 1869, Guerra e paz faz um painel histórico, com 500 personagens, quase todos reais. 
Passageiro do Fim do Dia

Rubens procurou transferir ao português as inovações, a sintaxe e o léxico do romance. Segundo ele, Tolstói renovou o romance não só criando o épico moderno ao articular a vida íntima dos membros de cinco famílias nobres (fictícias) às campanhas militares do início do século XIX. “Ele registrou a fala de classes distintas. Há passagens intraduzíveis, como os diálogos dos camponeses e dos soldados. Tentei buscar correspondências coloquiais”, diz. Outra dificuldade foi manter o ritmo da narrativa, cheia de orações longas e interrupções, além do tom crítico. “Tolstói queria ser um bárbaro entre civilizados. Questionava a dominação cultural da Europa ocidental sobre o resto do mundo – encarnada em Napoleão, a figura mais saliente e atacada do livro.” O resultado é um texto nítido, sem frases intrincadas. Se em ficção ele é conciso, em tradução dá espaço à retórica de Tolstói. 

A professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília, especialista em literatura brasileira atual, afirma que a obra de Figueiredo se distingue da ficção urbana atual pela densidade. “Ele aborda cenários pobres, mas seus personagens não são violentos. Eles refletem, e isso cria estranhamento. Seu estilo é amarrado, o que a gente nota em suas traduções.” Para o tradutor do russo Paulo Bezerra, o que conta não é Figueiredo ser ficcionista, mas conhecer a língua e a cultura russas. “O ficcionista cria sua ficção, mas quando traduz se coloca na mesma condição do ‘não ficcionista’: opera com ficção alheia e desaparece como ficcionista. E isso Figueiredo faz bem.”


Para Rubens, não há segredo em ser a um tempo tradutor e romancista. “Tanto um como outro se expressam numa língua. O objetivo do tradutor é recriar no vernáculo um texto de outro idioma; o do ficcionista, exprimir sua experiência.” Por isso, ele traduz com disciplina, mas faz ficção só quando tem o que dizer. Enquanto não lhe vem à cabeça uma trama, dá aulas e traduz. Planeja traduzir as memórias e os contos de Tolstói. “Não me forço. Escrever é uma necessidade que nasce da vida diária. Tanto fazer ficção como traduzir não envolvem apenas palavras. É bem mais que isso.”


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O Legado de Lev Tolstói para o século XXI

Acontece em São Paulo entre os dias 14 e 17 desse mês o Seminário Internacional "O Legado de Lev Tolstói para o século XXI" com as presenças de Vladimir Tolstói, trineto do autor; Pavel Bassinsky, escritor e crítico literário; e também do poeta, escritor e pesquisador Igor Vólguin, uma oportunidade unica para qualquer admirador dos russos.

Detalhes do evento:

Primeiro Encontro (14.09.2011)
Tema: O Universo de L. Tolstói 
Palestrante: Conde Vladímir Ilítch Tolstói (Presidente da Fundação L. Tolstói. Diretor do museu de L. Tolstói “Iasnáia Poliána”, trineto de L. Tolstói)
Mediadora: Elena Vássina (Profª Drª de Literatura Russa/USP)

Segundo Encontro (15.09.2011)
Tema: Tolstói, grande humanista.
Palestrante: Pavel Bassinsky, escritor e crítico literário russo, ganhador de importantes prêmios literários, membro do júri do Prêmio Literário “Iásnaia Poliana”/ L.Tolstói. Seu último livro L. Tolstói, uma fuga do paraíso (2010) tornou-se o best seller internacional e está sendo traduzido no Brasil.
Mediadora: Aurora Bernadini (Profª Drª de Literatura Russa/USP)

Terceiro Encontro (16.09.2011)
Tema: Tolstói e a literatura contemporânea.
Palestrante: Igor Vólguin, já conhecido pelo público eslavófilo brasileiro por ter participado do seminário sobre Dostoiévski no CCBB, Igor Vólguin é um destacado poeta, escritor e pesquisador russo. Autor de várias coletâneas de poesia e livros sobre a literatura e história russas, como O último ano de Dostoiévski; Anotações históricas (1986); Nascer na Rússia; Dostoiévski e os contemporâneos, vida em documentos (1991); Metamorfoses de poder (1994); A Devolução do bilhete e Paradoxos da consciência nacional (2004). Seu último livro Fugir de todos: Lev Tolstói como peregrino russo (2010) ganhou o prêmio da revista literária “Oktiabr”. Ele também é fundador e presidente da Fundação Dostoiévski, membro do PEN CLUB e professor titular da Universidade Estatal de Moscou Lomonóssov e do Instituto de Literatura Górki.
Mediadora: Arlete Cavaliere (Profª Drª de Literatura Russa/USP)

Quarto Encontro (17.09.2011)
Tema: Tolstói e tolstoísmo hoje, no Brasil e no mundo / Mesa redonda sobre as questões de não violência, de amor na obra de Tolstói e as traduções de Tolstói no Brasil
Participantes: Bruno Gomide (Prof. Dr. De Literatura Russa , USP), Dante Marcello Claramonte Gallian (Prof. Dr UFESP), Elena Vássina (Profa. Dra. De Literatura Russa , USP), Noé Siva (Prof Dr de Literatura Russa, USP)

Serviço:

O Legado de Lev Tolstói para o século XXI
Horários: 14, 15 e 16.09.2011 (quarta, quinta e sexta-feira) às 19h30 e dia 17.09.2011 (sábado) às 15h
Local: Centro Cultural Banco do Brasil 
Cinema
Lotação: 70 lugares
Endereço: Rua Álvares Penteado, 112 - Centro
Informações: 11 3113.3651
Entrada franca

terça-feira, 23 de agosto de 2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Lançamentos: Agosto de 2011

Agosto é o mês da literatura russa, com o lançamento de uma tradução inédita de Dostoiévski e duas caixas de livros, que podem facilitar um pouco a vida do leitor.

O lançamento principal é O Duplo (Двойник), de Dostoiévski, que sai pela Editora 34 em uma tradução inédita de Paulo Bezerra. Até então só disponível em Portugal ou em sebos por preços astronômicos numa tradução indireta. O release da editora:

Pouco depois de seu aclamado romance de estreia, Gente pobre (1846), Dostoiévski publicava O duplo. Embora incompreendido pela crítica da época, devido à novidade do tema e ao experimentalismo formal propostos, o autor sempre teve plena convicção sobre sua importância, a ponto de escrever no Diário de um escritor, vinte anos mais tarde: "nunca dei uma contribuição mais séria para a literatura do que essa".
De fato, o drama do pequeno funcionário que, oprimido pelo contraste entre a imagem que faz de si mesmo e a realidade, passa a enxergar e conviver com seu próprio duplo — que o persegue e ameaça levá-lo à loucura —, era já o primeiro esboço do principal personagem-tipo dostoievskiano: o "homem do subsolo", o indivíduo cindido internamente que se desdobraria no Raskólnikov de Crime e castigo, no Míchkin de O idiota, em Ivan Karamázov e em vários outros.
Influenciada por Hoffmann e Gógol, esta história — capaz de suscitar igualmente o riso e a dor — ganha aqui sua primeira tradução direta do russo, que busca preservar todas as nuances do texto, e vem acompanhada de uma seleção das magníficas ilustrações do artista expressionista austríaco Alfred Kubin (1877-1959).

Raquel Cozer ainda informa em sua coluna de 30/7 que o livro terá três capas diferentes, nada que a editora confirme. Tal edição não poderia sair em melhor hora, dados os rumores de adaptação da obra para o cinema, com  direção de Richard Ayoade e Jesse Eisenberg no papel principal.

A L&PM está lançando a caixa especial literatura russa, uma caixa com algumas traduções indiretas que acaba saindo pelo mesmo preço dos livros separados. A caixa é composta por:

Nikolai Gogol:
- O Capote seguido de O Retrato - tradução do francês por Roberto Gomes
- O Nariz seguido de Diário de um Louco - tradução do francês por Roberto Gomes
Lev Tolstói:
- A Felicidade Conjugal seguido de O Diabo - tradução do russo por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
- Senhor e Servo & outras histórias - Tradução do russo por Tatiana Belinky
Anton Tchékhov:
- A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias - tradução do russo por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
- Um Homem Extraordinário e Outras Histórias - Tradução do russo por Tatiana Belinky
Fiódor Dostoiévski:
- Noites Brancas - tradução do inglês por Natália Nunes

O último lançamento do mês é uma caixa da Editora 34 com quatro livros de Dostoiévski: Gente Pobre, Noites Brancas, Memórias do Subsolo e Duas Narrativas Fantásticas (todos tradução direta). O lançamento é exclusivo da Livraria Travessa, que está com um preço bem mais simpático do que os preços normais dos livros soltos.

O mercado editorial está em um ótimo momento, tanto pra quem já é conhece os russos quanto pra quem quer conhecer. A promessa é de que até o fim do ano veremos o lançamento de Guerra e Paz de Tolstói (Cosac Naify) e Contos de Bunin (Amarilys), Nobel  de Literatura de 1933 pouco conhecido no Brasil.

domingo, 31 de julho de 2011

Literatura Ilustrada II

Maxim Gorki com o crítico literário Vladimir Stasov e o Pintor Ilya Repin
Tolstoy e Górki
Tchekhov em família
Bônus: Marilyn Monroe lendo Guerra e Paz

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Do além

Qual seria sua reação se ao andar de metrô em São Paulo visse um banner de uma nova obra de Tolstói? Uma nova obra "escrita" há alguns meses, não uma nova edição de Guerra e Paz. Todos sabem que Tolstói morreu há cem anos atrás, mas o que nem todos sabem é que Tolstói continua escrevendo e de forma muito prolífica. Seu lançamento mais recente é a obra Paixão de Primavera:


Enquanto eu fazia a pesquisa sobre o livro estava cético mas preparado para fazer uma análise justa do livro, só colocando em questão a qualidade da obra, afinal, não tenho a resposta definitiva sobre o que se passa em um possível além, até que vi o "book trailer" do livro. Nunca imaginei que depois de morto Tolstói fosse virar uma espécie de Sabrina russa: "Uma doce paixão de primavera ainda vive em seu coração, ameaçada pelo cruel e traiçoeiro inverno russo, devorador de almas e ilusões."

Em uma rápida busca no Google encontrei pelo menos uma dúzia de títulos psicografados pelo "Espírito Tolstói": Mansão dos Lilases, Ressurreição e Vida, Sublimação, A Eterna Mensagem do Monte, uma série de teor cristão com os títulos Arte de Recomeçar, Mulheres Fascinantes, Homens Notáveis e Retratos de Nazaré. O título que mais me chamou atenção foi Leon Tolstói Por Ele Mesmo, que me atiçou uma vontade, quase um fetiche, em saber o que Tolstói tem a dizer depois de morto, mas não... Não acho que essa leitura se dará nesta encarnação.

Ao que parece, Tolstói não está sozinho nessa carreira, Dostoiévski, obviamente, lançou o que parece ser sua unica obra do além-túmulo, "Réstia de Luz", um livro de conteúdo histórico e com a temática do parricídio, que parece um pouco mais convincente, mais próximo de uma obra de Dostoiévski mas que ainda causa suspeitas.

Ler um destes livros "psicografados" não me parece má idéia do ponto de vista de um curioso, mesmo que seja só um autor falido tentando emular o estilo de um autor renomado, coisa que não parece acontecer no caso do Tolstói do Além. Aliás, alguém faz idéia do que viria a ser uma boa emulação de um autor?

Divaldo Pereira Franco (famoso médium) psicografou diversos livros pelo espírito de Victor Hugo, e eu sempre me perguntei: Por que Victor Hugo? Por que não um autor bom porém desconhecido? No caso de Tolstói e Dostoiévski, por que não Andreiév e Lermontov? Até no mercado editorial do além os autores mais famosos tem mais chances? Bizarro.

sábado, 12 de março de 2011

Quando Tolstói virou profeta

O fim da vida do escritor russo (Revista Época)


A fase final da vida de alguns grandes artistas costuma render situações excêntricas. Isso quando o espírito não morre antes do sujeito. O escritor americano Henry James terminou seus dias escrevendo relatos sem sentido e pensando que era Napoleão. Goethe morreu ansiando por mais luz, mais conhecimento. Há os autores que viram profetas. Nesse quesito, um dos casos mais curiosos envolve o escritor russo Tolstói, hoje chamado de Liev Nikoláievitch Tolstói, segundo a nova norma de transcrição fonética do russo – em vez de Leon ou Leão, como era conhecido no Brasil em outros tempos.

Tolstói (1828-1910) é um dos maiores narradores da história literária. Escreveu os romances Guerra e paz (1869) e Ana Kariênina (1877) e outras tantas obras-primas. Cético e libertino na juventude, ele se reconverteu ao cristianismo em 1882, aos 64 anos. E que reconversão espetacular: questionou a autoridade do czar, rompeu com a igreja ortodoxa russa, onde fora batizado, e criou um culto próprio, baseado na fé, na caridade e na distribuição de bens. Separou-se da mulher, Sonja Behrs, que não queria que ele doasse sua propriedade principesca, a Iásnaia Poliana, aos camponeses e beatos que o cercavam.

Não bastasse provocar a indignação da família e das autoridades, o escritor cometeu um pecado ainda maior aos olhos de seus amigos autores: romper com os fundamentos da arte pela arte. Tornou-se crente em uma arte engajada e realista, ainda que baseada nos princípios cristãos. Foi assim que escreveu romances de tese, como Ressurreição (1899), não menos belos e importantes que os anteriores.

Seus derradeiros anos, no entanto, foram marcados por ideias polêmicas. É esse o momento enfocado no interessante volume Os Últimos Dias De Tolstói (Penguin Companhia, 432 páginas, R$ 29,50) em traduções diretamente do russo. Trata-se de uma coletânea de textos de maturidade. Ou melhor, do período de rompimento maior do velho artista. A seleção foi feita pelo americano Jay Parini como material de pesquisa para seu romance A última esta-ção: os momentos finais de Tolstói, que acaba de ser adaptado para o cinema.

O volume traz o célebre texto de conversão de Tolstói, Uma confissão, de 1882, bem como a correspondência e os últimos contos de evocação folclórica. Lá está também o ensaio em que Tolstói refuta as peças de Shakespeare. Nesse texto, intitulado “Sobre Shakeaspeare e o teatro – ensaio crítico” (1906), Tolstói tenta demonstrar que a crença na genialidade do Bardo não passa de uma mentira. Tolstói leu e releu Shakespeare ao longo de 50 anos e chegou à conclusão de que ele “não pode ser reconhecido como autor grande e genial nem sequer como mediano”.

Ele desdobra sua tese ao analisar as principais peças shakespearianas, a começar pela mais elogiada de todas, Rei Lear. Tolstói reveza argumentos persuasivos e questionáveis. Entre os primeiros, aponta as falas exageradas e nada naturais dos personagens (chama Hamlet de “uma espécie de fonógrafo de Shakespeare”, que na peça fala pelo autor). Mas também condena temerariamente a moral shakespeariana, contaminada, segundo Tolstói, pelo desprezo ao povo e pela descrença na mudança da situação dos privilégios da nobreza. Acusa Shakespeare de niilista. Obviamente é um exagero. Para refutar Tolstói, basta ler as peças do autor inglês. Shakespeare transpira paixão pelo destino humano em grande parte de suas peças. Afinal, Tolstói no fim da vida foi tomado de iluminação ou enlouqueceu? Talvez ambas as alternativas sejam verificáveis. De certo modo, as ideias de um autor tão brilhante e profundo alertam para as razões bem fundamentadas – ainda que duvidosas – do extremismo religioso. 

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Exposição explora relação do escritor Tolstói com a Alemanha

Mostra, que acontece na Literaturhaus, em Munique, até 31 de janeiro de 2011, traz à luz laços entre o filósofo e o país que tanto o inspirou.

"Ein Licht ist mir aufgegangen" (uma luz se acendeu em mim, em tradução livre) escreveu Leo Tolstói em alemão no ano 1861, depois de um encontro em Berlim com o escritor Berthold Auerbach. Para ele, escrever em um idioma estrangeiro era algo excepcional: há muitos manuscritos em alemão do famoso escritor russo. Uma prova disso é o diário de Tolstói à mostra numa exposição na Literaturhaus, em Munique.

Também estão sendo expostas cópias dos cadernos de viagem dos anos 1857-1861, extrações das correspondências trocadas com seus 2 mil leitores alemães e outros documentos valiosos. O material mostra como o autor russo conhecia bem a Alemanha.

Svetlana Novikova, especialista em manuscritos do autor e perita do Museu Tolstói, de Moscou, fala de sua paixão pela Alemanha: "Ele amava a música alemã, Beethoven, Bach e os filósofos e escritores que ele podia ler em alemão".

Influência dos professores

O bom conhecimento da língua alemã do escritor nascido em 1828 e batizado Lev Nikolajewitsch Tolstói deve-se ao seu professor, Friedrich Rössl. Segundo a curadora da mostra, Johanna Döِring-Smirnov, a família Tolstói o chamava de Fjodor Iwanowitsch.

"Ele era um soldado que desertou e sapateiro. Uma pessoa relativamente simples, mas com virtudes como compaixão e simpatia, que foram ensinadas a Tolstói", afirma.

Outro papel importante para o desenvolvimento do seu senso de justiça foi desempenhado pelo professor Dimitri Meier, da Universidade de Kazan. Aos 17 anos, Tolstói recebeu do professor a tarefa de comparar a czarina Catarina, a Grande, nascida alemã, com o filósofo e iluminista francês Montesquieu.

"Isso o impressionou tanto, que ele se tornou um dos primeiros críticos do czar. Mas, acima de tudo, com Meier ele aprendeu a responsabilidade social para com seus agricultores, e que não é tão importante filosofar, mas implementar a filosofia na prática", diz Döِring-Smirnov.

Depois de abandonar os estudos em Kazan, o jovem conde Tolstói retornou para Iasnaia Poliana, e tentou implementar suas ideias iluministas na propriedade de sua família na Rússia central.

Sua prioridade era a educação da população rural. Na Alemanha, porém, ele procurou em vão por exemplos neste sentido. Nos seus diários de viagem, ele expressou sua indignação sobre o castigo físico e a obrigatoriedade de decorar.

 Anos conturbados

A ligação de Tolstói com a Alemanha se solidificou em 1862 através do seu casamento com a teuto-russa Sofia Andreievna, nascida Behrs, com quem teve 13 filhos. A esposa, 16 anos mais jovem, foi de grande ajuda para o trabalho de Tolstói, até que, em 1881, aos 63 anos, ele abdicasse de privilégios e direitos autorais para viver apenas como camponês.

"Esta já é, por um lado, a história de Konstantin Levin em Ana Karenina, que virou agricultor. Mas em contrapartida foi uma tragédia para Sofia", afirma a curadora.

A ruptura definitiva entre os cônjuges aconteceu pouco antes da morte do escritor. Depois de uma briga com sua esposa, Tolstói saiu de casa aos 82 anos de idade. Ele morreu poucos dias depois, em 20 de novembro de 1910, em uma estação de trem. Ele foi enterrado em Iasnaia Poliana, onde havia nascido, sem uma identificação em seu túmulo, como desejara.

"O que podemos aprender com ele é que a liberdade não é determinada por circunstâncias externas, mas por um desenvolvimento interior", afirma Vitali Remizov, diretor do Museu Tolstói, de Moscou.

A exposição Ein Licht ist mir aufgegangen sobre Lev Tolstói e sua relação com a Alemanha pode ser vista na Literaturhaus, em Munique, até 31 de janeiro de 2011.

Autora: Anila Shuka (mda)
Revisão: Roselaine Wandscheer

Um gênio em busca de respostas

Morto há exatos cem anos, Liev Tolstói ganha em 2011 nova tradução do monumental Guerra e Paz e tem seus momentos finais contados no filme A Última Estação, que estreia em janeiro


Por Antônio Gonçalves Filho, para o Estadão

O centenário de morte do escritor russo Liev Tolstói (1828- 1910), que transcorre hoje, tem mobilizado o mundo em 2010. E por aqui, logo no início do próximo ano, trará em sua esteira o lançamento do filme A Última Estação, marcado para 28 de janeiro. O longa é baseado no livro homônimo do americano Jay Parini. Também em 2011 será publicada no Brasil uma tradução da mais ambiciosa obra do russo, Guerra e Paz. Aliás, o tradutor, Rubens Figueiredo, acaba de ganhar o prêmio Paulo Ronái da Fundação Biblioteca Nacional por sua versão para o português de Ressurrreição, o livro mais polêmico do autor.

Parini e Figueiredo falaram ao Sabático sobre sua longa convivência com a obra do gênio russo. Parini, que dá aulas no Middlebury College (Vermont, EUA), conversou com seu colega de trabalho Mario Higa (leia entrevista nesta página) sobre A Última Estação (Record), relato dos momentos finais de Tolstói. Figueiredo - que, além dos livros citados, já traduziu também o monumental Anna Kariênina, sempre para a editora Cosac Naify - atendeu à reportagem do caderno pouco depois de saber de sua premiação.

Curiosamente, tanto Jay Parini como Rubens Figueiredo, trabalhando na reconstituição da vida e da obra do russo, concluíram que Tolstói não foi aquele escritor que os biógrafos chamam de "doutrinário". Foi, sim, um reformista que, por condenar o materialismo, os governantes e a Igreja Ortodoxa Russa, sofreu a censura czarista e do clero. Para Figueiredo e Parini, o que chama atenção no ficcionista - sempre em busca de respostas - é a profusão de perguntas que faz a si e aos seus leitores.

"Tolstói aposta em respostas, mas elas são questionadas por ele mesmo e derrubadas, levando sempre a finais abertos, como o de Anna Kariênina", diz Figueiredo. Onde estaria o doutrinário no debate político-religioso do epílogo do romance, após o suicídio da adúltera Kariênina, corroída pela culpa? "O pensamento de Tolstói não sossega, ele não encontra chão estável", observa o tradutor, comparando-o ao protagonista de Ressurreição, "que está num processo de ampliação da consciência sem chegar a uma resposta".

A exemplo do aristocrata que persegue a redenção espiritual em Ressurreição, também o conde Tolstói busca em seu livro a oportunidade de corrigir um erro do passado - ambos se envolveram com criadas e as engravidaram, abandonando-as à própria sorte, sendo que, no romance, o nobre a revê anos depois no tribunal, então como uma prostituta detida sob acusação de ter roubado e envenenado um cliente. Nesse último romance escrito pelo russo, em 1899, consciente de sua culpa, o aristocrata Dmítri Ivánovitch Nekhliúdov segue a prisioneira Katusha até a Sibéria, disposto a casar - mas ela não acredita nele. O leitor reconhece no personagem o despertar de uma consciência e um sincero desejo de transformação - na época, Tolstói também já era um defensor de ideias igualitárias e pacifistas, clamando contra a injustiça praticada nos tribunais russos e o que considerava ser a hipocrisia da Igreja. O Estado e as autoridades eclesiásticas deram o troco. Ressurreição sofreu cortes, feitos pela censura czarista, sendo restaurado apenas em 1936 - versão usada para a edição brasileira.

O premiado Rubens Figueiredo lutou para publicar Ressurreição no Brasil. A fortuna crítica do livro - baseado em fatos verídicos - não registra lá fora resenhas tão entusiasmadas quanto a de seus livros anteriores, talvez porque o aristocrata Tolstói não veja a criada como a verdadeira criminosa, mas a sociedade que a condena, por ter ignorado sua condição quando mais Katusha precisava de apoio. "Vi as provas tipográficas de Ressurreição e as inúmeras correções que Tolstói fez ao lado delas, revelando o quanto ele ainda tinha a dizer", conta Figueiredo, observando que essa fúria revisional não foi um capricho sintático do autor, conhecido por suas frases longas e palavras repetidas, mas uma atitude de quem tinha sempre algo a mais a falar. O épico Guerra e Paz é um exemplo disso: o original russo tem quatro volumes e 508 personagens tirados da vida real, alguns bem conhecidos como Napoleão, julgado sem piedade por sua arrogância.

Os detratores de Tolstói o acusam do mesmo pecado - acrescentando o da inconsistência de suas crenças e da superioridade moral, as quais influenciariam seu amigo Gandhi em sua proposta de resistência pacífica. Biógrafos menos interessados em suas qualidades lembram que Tolstói esgotou o estoque de mercúrio russo para tratar de inúmeras doenças venéreas resultantes de uma agitada vida sexual, dentro e fora do casamento, antes de pregar a abstinência. Ele, ao menos, teve a honestidade de expor seu diário - e as aventuras nele reveladas - à leitura da mulher, sua colaboradora. Foi Sophia querm copiou e corrigiu os manuscritos de Guerra e Paz, mas foi também a mulher que teria envenenado o marido, segundo as más línguas.Tolstói saiu de casa em 28 de outubro de 1910, deixando uma carta conciliatória, porém poucos dias mais tarde confessou à filha Sasha que não suportava mais a malícia e a hipocrisia da esposa.

Não era a reação esperada de quem elegeu o Sermão da Montanha como guia e desejava seguir as palavras de Jesus. Tolstói alcançou relativo sucesso como líder espiritual e político, tendo inspirado anarcopacifistas com o trecho mais conhecido desse texto bíblico - oferecer a outra face quando ofendido. O czar quis comprovar ao vivo essa disposição, enviando emissários à estação ferroviária de Astapova - onde ele morreu, quando fugia de casa -, para se certificar que os seguidores de sua escola moral não o usariam, morto, como bandeira revolucionária. "Pouco se fala do esforço que seus leitores fizeram para preservar sua obra sem censura, como os estudantes que espalhavam cópias de seus manuscritos", diz Figueiredo, lembrando que vemos o escritor hoje mais como uma figura institucional do que um líder cuja casa era vasculhada pelos censores do czar e só escapou do exílio por causa de sua origem aristocrática. 

domingo, 29 de agosto de 2010

DVD: A saga russa de Tolstói

De Ricardo Daehn para o Correio Braziliense

No centenário de morte do russo Léon Tolstói, a íntegra da adaptação televisiva da mais consagrada obra dele, Guerra e paz (concebida por sete anos), chega ao DVD numa versão que não foi muito badalada, à época do lançamento (há três anos), mas que uniu potentes forças de coprodução entre Itália, França, Alemanha, Polônia e Rússia. O diretor romeno Robert Dornhelm conta com a excelência técnica de Fabrizio Lucci (fotografia) e do compositor polonês Jan A. P.


Kaczmarek (das trilhas de Ao entardecer e O visitante), a exemplo da mão de obra disposta para a obra de King Vidor, em 1956, única adaptação de respeito fora do território soviético em parelha, aliás, ao clássico do cineasta Sergei Bondarchuk. Este último levado às telas com mais de 400 minutos e foi ganhador do Oscar de filme estrangeiro de 1968.

Com quase 600 personagens e ensinamentos filosóficos para os tipos aristocráticos que habitam a Rússia prestes a ser invadida pelo poderio napoleônico, Guerra e paz é colossal no papel. Na tevê, apega-se à gama de identificação possível com infinitos personagens, nunca jogados desnecessariamente no enredo. Até o final, um tanto apressado, é possível testemunhar, ao lado do aprendizado do ilegítimo filho da nobreza Pierre Bezukhov (Alexander Beyer, de Adeus, Lênin), uma trama de amadurecimento (expresso na romântica Natasha Rostova, papel de Clémence Poésy, atriz da franquia Harry Potter), assentada em sólidos valores familiares e que ainda revela o arrojo na integração de um povo devastado, que se recobra da destruição bélica, no século 19.


Para além do caráter exageradamente introdutório (em partes do primeiro capítulo) e da imponência dos salões apinhados de casais elegantes, como Hélène Kuragin e Pierre ou Lise e Andrei Bolkonsky (o casado pretendente de Natasha, interpretado por Alessio Boni, de O melhor da juventude), a minissérie segue por mais dois capítulos (a metade do total de quase sete horas), num ritmo que projeta Nikolai (o endividado primogênito dos Rostova), voluntário das batalhas; as artimanhas russas e austríacas contra o poderio francês e o contraste entre o sábio bonachão general Kutuzov (cioso dos 500 mil adversários) e a insípida retratação de Napoleão, a cargo do francês Scali Delpeyrat.

Hábil na coordenação das cenas de tocaia e de corpo a corpo, na linha dos filmes anteriores que empregaram em cena mais de 20 mil figurantes e apelaram para objetos de 40 museus russos, o diretor Robert Dornhelm reveste a minissérie Guerra & paz com o desapego propalado pelo mesmo autor de Anna Karenina, que teve contato com a lida no Exército, durante a Guerra da Crimeia. Outro ponto respeitado, saído do livro, a caótica interferência das coincidências e do determinado destino atravessa a vida do solene e educado Pierre, que, pelas exigências dos acontecimentos históricos, chega à condição de revolucionário incendiário.

Entre prosaicas descrições de romances (o melhor exemplo é o esmorecimento do amor de Sonia e Nikolai, por razões sociais), Guerra & paz tira proveito da narrativa abundante em adultérios. De cartas anônimas a inusitados duelos com armas, passando por calculados artifícios de perversão, muito contraria a crença de Natasha de que “o amor é cada um de nós prontos para o esplendor”. No tabuleiro de libertinagens, o personagem Anatole (numa perfeita caracterização do alemão Ken Duken) é hors-concours, enquanto, na resistência pueril de Guerra & paz, o distinto Andrei pavimenta um enobrecimento, partindo da inicial ideia de que “perdoar” seja “uma virtude de mulher` até a conclusão da falta de consistência que engloba o sentimento de ódio.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Quando o autor está fora da tela

Adaptação cinematográfica do principal trabalho do ficcionista russo, dirigida por King Vidor, foi tratada sem reverência no caderno

O espetaculo cinematografico Guerra e paz oferece ocasião para o prosseguimento do debate em torno da validez da transposição de obras literárias, que é uma constante do cinema desde os seus primordios. Ainda hoje, apesar do apreciavel desenvolvimento da profissão de escritor cinematográfico, calcula-se em mais de um terço do total o numero de fitas cujo ponto de partida é uma obra literaria. A já longa experiencia demonstra não existir relação necessaria entre o nivel artistico do texto literario e o de sua adaptação cinematografica. "The Clansman" e "The Leopard"s Spots", duas novelas mediocres, e o proprio nome do autor, Thomas Dixon, são lembrados apenas porque foram os textos de base que Griffith utilizou em O Nascimento de uma Nação. O romance "Me Teague", de Frank Norris, há pouco reeditado, ocupa no panorama da cultura moderna uma posição incomparavelmente modesta frente a Greed, sua transposição para o cinema realizada por Stroheim. Por outro lado, a mediocridade ou as qualidades artísticas do original e da adaptação podem ser equivalentes, como foi o caso de Gone with the Wind ou de Le Diable au Corps, de Radiguet, filmado por Autant-Lara. Existem finalmente os casos em que os filmes são inferiores aos textos que os inspiraram, sendo essa a regra para as incontaveis vezes em que o cinema se aventurou a interpretar as obras-primas da literatura. O fenomeno é logico, e valerá a pena examiná-lo mais de perto em outra ocasião, bastando por ora lembrar que não tem relação com a tão falada especificidade da literatura ou do cinema, ou com a pretensa incomunicabilidade entre os dois generos. Se até hoje as adaptações de Stendhal à tela têm sido mais ou menos infelizes, algumas passagens de Senso, de Visconti, que não tem ligação direta com a obra stendhaliana, refletem as ricas possibilidades de um "beylismo" cinematográfico. Ultimamente, aliás, tem havido filmes cujo nivel artistico nada tem de afrontoso aos textos classicos que os inspiraram. (...)

A insatisfação que nos causa Guerra e Paz não se deve a nenhuma vulgarização excessiva. O nivel do espetaculo é alto sob muitos aspectos, as personagens e situações que comporta foram todas calçadas no romance. Na maior parte do tempo, porém, o espirito que Tolstoi lhes inculcara se evaporou na transposição. Houve ainda algo pior do que a incapacidade em captar a natureza das personagens ou o sentido das situações: em algumas sequencias a fita procurou valorizar precisamente aquilo que nas passagens correspondentes o romancista negou e destruiu, como os clichês historicos convencionais herdados do romantismo, pelos quais Tolstoi tinha horror.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A trajetória do guerreiro Khadji-Murát

Do jornal A Notícia.

Antes de voltar à questão da flor, é necessário situar um pouco o leitor na trajetória do herói do livro. Khadji-Murát é o símbolo da resistência russa contra o czarismo. Por questões particulares, abandonou o seu clã caucasiano para aderir aos russos que lutavam contra o poderoso Chamil. Este último é um comandante de rebeldes chechenos tão cruel que não há como descrevê-lo de outro modo e cujo opositor o czar Nicolai 1º é a sua outra face, dois em um só, Jano Bifronte, separados pelos ideais de domínio e sede de poder e sangue. O texto de Tolstói antecipa a revolução de 17 de outubro.

“Khadji-Murát” surge nesse rosto bipartido – entre os olhares do czar e os do comandante maior do Cáucaso – como a terceira face. É o homem que ilumina sua passagem pela vida e pela guerra com a poesia da montanha, de onde veio. Nesse aspecto, entra em cena o Tolstói de “A Morte de Ivan Illitch”, perscrutador do caráter humano e crítico da burguesia.

Nessa novela, interessa a avaliação do caráter e do espírito humano – como Dostoiévski o fez em “O Idiota”. Aliás, o livro que mais o decepcionou porque, ao engendrar a história de um homem bom, o príncipe Minchkin, ele percebeu, ao final, que mesmo na ficção isto era impossível: criar o homem perfeito, inteligente, honesto.

Tolstói sofreu da mesma doença. Mas ao contrário de Dostoiévski, aplica na matéria de carpintaria do texto a sutileza e o zelo pela linguagem. Sugere ao leitor as metáforas que lhe são convenientes e conforma este relato que fala muito mais dos desejos e dos sonhos da experiência humana do que da guerra.

Depõe a favor desta experiência sobre o quanto há de fragilidade na alma do herói, no espírito de todos nós, como a bardana, esmagada pelas rodas de uma carruagem, mas que, ainda assim, rebrota nos campos semeados e negros das planícies do inatingível Cáucaso.

“Mas que energia e que força vital. Com que tenacidade ela se defendeu e vendeu caro a vida”, admira-se o narrador, na página 22 – que confunde o leitor e transforma a obra em uma narrativa de duplo ponto de vista. Nada mais moderno para a época, 1910, quando a novela foi publicada – o ano da morte do escritor.

“Khadji-Murát”, de Liev Tolstói.
Tradução de Boris Schnaiderman. CosacNaify, 224 páginas. R$ 33.

Mudando de assunto: Penguin + Cia das Letras

Conforme informado pelo Globo, a Cia das Letras vai lançar dia 28 próximo os clássicos da Penguin. Creio que esta é a grande chance de termos boas traduções dos clássicos a preços acessíveis, não será mais a novela "Compro Martin Claret e almoço ou compro Cosac Naify/34 e minha família toda deixa de almoçar por um mês?". Concorrência!

Ah, sim, só pra não sair totalmente do assunto, "Últimos dias: os escritos tardios de Liev Tolstói" está prometido pra dezembro. O mercado editorial brasileiro tomou gosto por Tolstói, hm? Prefiro minha parte em russos undergrounds, obrigado.

domingo, 27 de junho de 2010

CULT: Ressurreição

Em seu último grande romance, Tolstói mantém viva a consciência individual
Moscou, séc. 19

Muitos se perguntam por que será que os romances dos “grandes russos” continuam sendo lidos com afã, mesmo hoje, passados quase 200 anos de seu nascimento. Não é apenas pelo fato de eles se preocuparem profundamente com as questões mais pungentes da humanidade e proporem as soluções a que eles chegaram, mas – o que mais espanta – é ver como a história, no decorrer desses séculos, tornou esses conteúdos cada vez mais atuais.

O caso de Lev Nikolaevitch Tolstói (1828-1910) é sintomático. Em particular, em Ressurreição, o último de seus romances longos, iniciado em 1889 e publicado dez anos depois, cuja trama lhe veio de uma conversa com um jurista russo de grande renome (o mesmo que fornecera a Dostoiévski informações sobre casos de justiça criminal, aproveitados em Os Irmãos Karamazov). As descrições cuidadosamente fundamentadas da indiscutível injustiça do sistema judiciário e prisional, na prática e, principalmente, em seus princípios – na Rússia e no mundo –, são gritantes.

A trama é simples, como é simples e clara a linguagem que a narra, que o tradutor conservou. Uma menina particularmente graciosa, Katerina Mikháilovna Máslova (Kátia), filha de uma criada e de pai desconhecido, é semiadotada por duas solteironas da nobreza que vivem em sua propriedade rural, tias de Dmítri Ivánovitch Nekhliúdov, o protagonista da história. Por um lado, Kátia é educada como moça de família, por outro, serve como uma espécie de criada às duas solteironas. Nas férias, o jovem Nekhliúdov, ainda estudante, se apaixona pela linda moça em que Kátia se transformou e, sem que seja confessado, seu amor é correspondido e narrado na primeira parte do livro, por meio de muitas metáforas encantadoras, como mais um dos poéticos idílios bucólicos em que Tolstói era mestre.

Infortúnios
Logo depois começam os males. De volta à capital, o jovem nobre é engajado no exército e, na vida ociosa do oficialato, feita de duelos, bebedeiras, carteado e devassidão, perde sua pureza rousseauniana e se transforma ele mesmo em libertino. Por ocasião de uma volta ao campo, seduz a pobre Kátia, ainda pura e apaixonada. Sua sina é implacável. Mãe solteira, é expulsa pelas tias e, após algumas experiências em que seu trabalho sempre esbarra na concupiscência masculina, acaba entrando para um famoso prostíbulo da capital, onde é acusada de um assassinato por envenenamento, que ela não cometeu.

O destino quer que Nekhliúdov, já mais maduro e cheio de dúvidas quanto à justiça das instituições e da sua própria conduta, quase noivo de Missi, seja convocado como membro do júri que decidirá a sorte da moça. O choque que ele sofre ao descobrir que a acusada é a pobre Kátia, por cuja ruína ele se sente responsável, repercute nele dramaticamente.

Decide então desfazer-se de suas propriedades em favor dos camponeses (aqui Tolstói revela-se adepto das teorias de Henry George: “não dar o mesmo a todos, mas recolhê-lo em uma comunidade que o distribuiria etc.”) e acompanhar a ré, obviamente sentenciada a trabalhos forçados na Sibéria pelos altos funcionários desumanos e corruptos do sistema infame. As vergastadas com que Tolstói castiga esse sistema e a certeira descrição dos ambientes e dos personagens são pontos altos do livro, dificilmente igualados, inclusive porque ele consegue manter, nesse ambiente kafkiano, o suspense e a dinamicidade do desenrolar da história.

Oposição ao catolicismo ortodoxo
Entre os funcionários, não escapam os popes – padres da Igreja Ortodoxa contra cujos dogmas Tolstói se insurgiu. Conforme se sabe, ele viria a ser excomungado, ao propor os cinco pontos do Sermão da Montanha (Evangelho segundo Mateus) como guia para o comportamento moral: pacifismo e consideração por todos, sem distinção; castidade e fidelidade; descomprometimento via juramento; perdão e oferecimento da “outra face”; amor e piedade para com o ser humano, inclusive em relação aos inimigos.

Tolstói associava a Deus a ideia do Bem, e o que vai ditar aos homens o que é esse Bem é sua própria consciência: “Entender a obra do Senhor não está em meu poder” – reflete Nekhlíudov. “Mas cumprir sua vontade, inscrita na minha consciência, isso está em meu poder e isso eu sei de modo indubitável.” Tudo está em não deturpar nem deixar amortecer a consciência dentro de si; essa é a chave da proposta tolstoiana, sabiamente exposta neste seu último grande romance.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Lançamento de Ressurreição

Do site da editora:

Ressurreição, de 1899, o último livro publicado em vida por Liev Tolstói (1828-1910), completa o trio de seus grandes romances ao lado de Anna Kariênina e Guerra e paz (lançamento previsto para 2011). A primeira tradução brasileira direta do original russo, feita por Rubens Figueiredo, chega às estantes no ano do centenário da morte do autor. A apresentação do tradutor traz detalhes do contexto em que a obra mais polêmica do mestre russo foi criada e, ao lado do texto de quarta capa do cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, atualiza sua dimensão literária e social.

No enredo, baseado em fatos verídicos, um príncipe é convocado a integrar um júri e reconhece na ré uma criada que ele engravidara anos antes. Prostituída, ela é detida sob as acusações de roubo e envenenamento de um cliente e por isso acaba condenada a trabalhos forçados na Sibéria. O aristocrata busca a salvação da jovem e a própria redenção espiritual, enquanto a narrativa revela os verdadeiros criminosos daquela sociedade.



Autor: Liev Tolstói
Tradução: Rubens Figueiredo
Apresentação: Rubens Figueiredo
Quarta capa: Paulo Sérgio Pinheiro
Dimensões: 160 x 230 mm
Páginas: 432; Ilustrações: 4















"Completa o trio de seus grandes clássicos"? "Obra mais polêmica"? Então, né.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Lançamento de Guerra e Paz (2007) em DVD

Do site da produtora:


Título: Guerra e Paz (Digipack com 4 DVDs) - Entrega a partir de 05/07
Título Original: War and Peace
Direção: Robert Dornhelm
Elenco: Alexander Beyer, Clémence Poésy, Alessio Boni, Malcolm McDowell, Andrea Giordana, Brenda Blethyn, Violante Placido, Toni Bertorelli, Hannelore Elsner
Ano de Produção: 2007
Duração: 408 minutos

A Versátil apresenta Guerra & Paz, a monumental minissérie européia baseada na imortal obra de Léon Tolstói, um dos maiores romances da Literatura Universal. Com uma reconstituição de época impecável e linda trilha sonora de Jan Kaczmarek (Drácula de Bram Stoker), esta superprodução tem um elenco estelar liderado por Clémence Poésy, Alexander Beyer (Adeus, Lênin), Malcolm McDowell e Brenda Blethyn. Esta caixa com 4 DVDs traz ainda o making of da produção. No início do século XIX, a invasão da Rússia pelas tropas napoleônicas afeta profundamente a vida das famílias aristocráticas Bezukhov, Bolkonski e Rostov. Amores, tragédias e desilusões se sucedem neste panorama épico de um país devassado pela guerra.

Esta é a segunda versão de Guerra e Paz a ser lançada no Brasil, a primeira é a de 1956, de King Vidor, com Audrey Hepburn e Henry Fonda. Infelizmente ainda não temos uma edição nacional da versão que vale, de Sergei Bondarchuk, vulgo o filme mais caro do mundo.